2026/02/27

Camões em Sophia de Mello Breyner Andresen




Navegámos para Oriente –
A longa costa
Era de um verde espesso e sonolento

Um verde imóvel sob o nenhum vento
Até à branca praia cor de rosas
Tocada pelas águas transparentes

Então surgiram as ilhas luminosas
De um azul tão puro e tão violento
Que excedia o fulgor do firmamento
Navegado por garças milagrosas

E extinguiram-se em nós memória e tempo

 
Sophia de Mello Breyner Andresen

In: Navegações. Lisboa: INCM, 1983
Reed. na Assírio & Alvim, 2015

Camões e a tença


Irás ao Paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce

Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou seu ser inteiramente

E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto

Irás ao Paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência

Este país te mata lentamente

Sophia de Mello Breyner Andresen

In: Dual. Lisboa: Moraes, 1972.
Reprod. em Obra Poética III
Lisboa: Caminho, 1991, p. 162.


Soneto à maneira de Camões


Esperança e desespero de alimento
Me servem neste dia em que te espero
E já não sei se quero ou se não quero
Tão longe de razões é o meu tormento.

Mas como usar amor de entendimento?
Daquilo que te peço desespero
Ainda que m'o dês - pois o que eu quero
Ninguém o dá senão por um momento.

Mas como és belo, amor, de não durares,
De ser tão breve e fundo o teu engano,
E de eu te possuir sem tu te dares.

Amor perfeito dado a um ser humano:
Também morre o florir de mil pomares
E se quebram as ondas no oceano.

Sophia de Mello Breyner Andresen

In: Coral, 1950


Gruta de Camões

Dentro de mim sobe a imagem dessa gruta
Cujo silêncio ainda escuta
Os teus gestos e os teus passos.

Aí, diante do mar como tu transbordante
De confissão e segredo,
Choraste a face pura
Das brancas amadas
Mortas tão cedo. 

Sophia de Mello Breyner Andresen

In: Dia do Mar, 1947
Reprod. em Obra Poética
Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 157


para saber +


André Vinagre

In Luís de Camões - Diretório de Camonística, 11.06. 2017


Virgínia Boechat
Aquele que recebeu em paga: 
acerca de um Camões no poema [“Camões e a tença”] de Sophia
in ABRIL – Revista do Núcleo de Estudos de 
Literatura Portuguesa e Africana da UFF, 
Vol. 3, n.° 4 (Abril  2010), 105- 





Redação: 27.02.2026

A VIDA DE CAMÕES