O poeta J. J. Monteiro no Jardim Luís de Camões
Foto em Macau vista por dentro, 2020, p. 442
Desta gruta, que escutou o vate
que aqui cantou
a Pátria, o Amor, a Saudade!
J. J. Monteiro, 1913-1988
poeta português radicado em Macau
Poemas extraídos da sua obra
Macau Vista por Dentro
A venerável gruta do famoso vateMARAVILHAS DE MACAU
Tens sempre a porta aberta, entra ó peregrino,
Pão, abrigo e carinho, acharás, afinal,
Neste luso cantinho, aqui tão pequenino.
Sim, china, amigo nosso, entra, não tenhas medo
E abraça o português, que só o mal combate;
Respeita esta cidade e admira aquel' rochedo,
A venerável gruta onde o famoso vate,
Luís Vaz de Camões, cantou, com voz maviosa,
O seu amor à Pátria e mais as suas tristezas!
J. J. Monteiro
"Macau vista de fora"
in Macau vista por dentro,
2.ª ed., Macau: IIM, 2020, 76
Camões na História de MacauOITAVAS
Factos mais importantes da História
Desta linda terra Macau, nobre e legal,
Quisera eu narrar, sem ter a glória
De a mim me acompanhar a musa ideal,
Que acompanhou Camões de alta memória,
Ao escrever no seu Livro Imortal
Os feitos duma gente resoluta,
Como Macau o ouviu naquela gruta!
É certo que o silêncio do Poeta
Não fala de Macau, nem nada diz
De ser a sua estada aqui concreta,
Talvez por se julgar muito infeliz
Com a morte da sua tão dileta
Natércia que, também sem ser feliz,
Morreu pensando nele e ele nela.
Aqui naquela gruta, longe dela.
Diz-me, ó gruta, se igual ao teu negror,
Não eram dele as queixas mil que ouviste?
E se não foi também com pranto e dor
Que a sua musa, então falando triste,
Assim disse, inspirando o bom Cantor:
– Alma minha gentil que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente!…
Gruta benigna*, sábia testemunha, [* Expressões de Garrett em Camões 1824,
seu amor à Pátria e mais também Canto V, est. VI].
Dos lânguidos suspiros* que lhe punha
Sua alma saudosa, vendo além
Tão distante de si com quem mais supunha
Amá-lo, porque amou muito e bem,
Como esta mesma gruta lhe escutou
As queixas namoradas* que soltou.
Hoje, linda Macau, franca Cidade,
Orgulhosa se sente em ali ter
Um recanto de amor e de saudade,
Cheio de fresquidão, calma e prazer,
E o busto de Camões; olhando-o há-de
Muito brio ter a gente em pertencer
À mesma Pátria que o Poeta amou,
E que em seus versos tanto sublimou!
Pátria que todos nós aqui, do fundo
Do coração, amamos, vendo nela
A Mãe que mais heróis tem dado ao mundo
E outros varões ilustres, dignos dela;
Portanto, igual amor e brio profundo
Sentem nesta minúscula parcela,
Nós outros portugueses, por bem sermos
Da Pátria de Camões e por o lermos.
J. J. Monteiro
"Macau e a sua História"
in Macau vista por dentro,
2.ª ed., Macau: IIM, 2020, 57-59
Camões na cidade de Macau
QUADRO DE MAGIA
Para além dos dois portões,
Está o Jardim de Camões
E ainda o novo museu
Que tem por recheio seu
A alindar as galerias
Valiosas velharias
E muito antigo troféu.
Novo Museu de Camões
E, à volta, as habitações
Dos guardas e jardineiros,
Tanques, estufas, viveiros,
Árvores, sombra, frescura,
Lindos tufos de verdura.
Alegretes e canteiros.
Vê-se um ou outro penedo,
Junto à gruta de Camões
Mirantes, caramanchões,
Belos e umbrosos caminhos
E, sobre os ramais vizinhos,
Das aves suas canções.
Das aves suas canções.
Frescas ruas em declive,
Assim nos trouxe onde vive
A doce tranquilidade
Que oferece a soledade
Desta gruta, que escutou
O vate que aqui cantou
A Pátria, o Amor, a Saudade!
Longe da Pátria, exilado,
E de peito às musas dado
Num haurir de inspirações,
Aqui, Luís de Camões,
Grande Adamastor da ideia,
Começou sua epopeia
Que é o assombro das Nações.
Poema que, à luz dos sóis,
Canta a Pátria dos heróis
E os esforços mais que humanos
Dos ousados lusitanos,
Mais fortes em valor fero
Que os priscos heróis de Homero,
Por seus feitos soberanos.
Gruta benigna que ouviste
De Camões a lira triste,
Nas suas amarguradas
Penas, muitas espalhadas
Pelos teus verdes recantos,
Os seus suspiros e cantos,
Suas queixas namoradas!
Lusíadas!… Pátrio tesouro,
Onde há só páginas d’ouro
A engrandecer Portugal!
Poema, Livro Imortal,
Que todos devemos ler
Como um sagrado dever
Do nosso Amor Nacional.
Gruta saudosa e querida
Que a grata e encarecida
Natureza caprichou;
Aqui como a edificou
Guarda ela, orgulhosa, o busto,
Do nosso Épico augusto
Que à sombra sua cantou.
De ano a ano sem faltar,
A juventude escolar
Mais toda a gente em geral,
Ante o busto do imortal
Poeta, numa romagem,
Prestam a sua homenagem
No dia de Portugal.
E ali noutra rocha abrupta,
Lê o viajante que passa
Versos duma essência e graça
Doutros bardos, com amor,
Versos duma essência e graça
Doutros bardos, com amor,
Consagrados ao cantor
Que decanta a lusa raça.
E quem passa, com certeza,
Sente um cunho de tristeza
E a sua alma aqui se inflama,
Lendo os cantos de alta fama
Gravados neste rochedo,
Gravados neste rochedo,
De Almeida Garret, Quevedo,
De Tasso a Vasco da Gama.
Fica-te, gruta saudosa,
Entre a flora alta e viçosa
Deste jardim tão formoso,
Recanto maravilhoso
De onde nos vamos com custo,
Curvados, saudando o busto
Do poeta harmonioso.
Olhem ainda a gentinha
Que goza a fresca sombrinha
Junto à gruta de Camões,
Onde há belos pavilhões,
Mirantes, bancos e mesas,
Várias figuras chinesas,
Bichos, bonecos, dragões!
E aqui mesmo à nossa roda
Encontra-se Macau toda
Cercada de tanta ilha;
Ao ver tanta maravilha,
Tanto encanto e poesia,
Este quadro de magia,
Como a nossa alma se humilha!
Quão doce é viver assim,
Sob as frondes dum jardim
Como este, onde se aninha
E canta a inocentinha
Ave, sacudindo as penas
E onde se vêem centenas
De pessoas à sombrinha.
Ruas com vasos e flores
E frescos nos seus verdores
«Ficus», acácias, pinheiros,
Palmeiras, caramboleiros,
E pelas rochas sombrias
Trepa a hera e os «bons-dias»
E alastram-se os espinheiros.
«Árvores de São José»,
«Do pagode» e a flor de ipé,
Lírios, cravos, açucenas,
Goivos, rosas e verbenas
Dão-nos sombrinha e perfumes;
E ouvem-se os doces queixumes
Das aves de lindas penas.
Encantos deste jardim
Que vamos deixar por fim,
J. J. Monteiro
"Macau vista por dentro"
in Macau vista por dentro,
2.ª ed., Macau: IIM, 2020, 135-7
O Jardim de Camões hoje
O MESMO JARDIM DE ANTES
(1960? - 1983)
E daqui passo eu agora
Para o jardim de Camões...
À entrada, vasos com flores,
Do Épico o busto, ao centro
Da Gruta, que se viu cá
Há «Vinte e mais Anos» já, [Anos 60. Macau vista por dentro é escrito nesta década,
Em que levei os leitores embora venha a ser publicado apenas em 1983,
A ver Macau cá por dentro... na obra homónima que também integra outros livros de poesia]
O mesmo jardim de antes,
Cheio de encanto e verdura,
De sombrosos arvoredos,
Miradoiros e rochedos,
Alamedas verdejantes
Onde há paz, calma e frescura.
Prover vão este jardim
(Brevemente e sem deslize,
Como se pensa e é lógico)
De um bom Jardim Zoológico,
E oxalá que seja, sim,
Um sonho que se realize...
De tão boas esperanças
Bem vivem presentemente
(P'ra poderem ver um dia
A fauna mansa ou bravia)
As simpáticas crianças,
Novos, velhos, toda a gente...
Se sonhos são ilusões,
Que este não seja; e, dest'arte,
Sem mudarmos de lugar,
Vamos também visitar
O amplo Museu de Camões
Que deste jardim faz parte...
Vejamos, como os turistas,
Artefactos sepulcrais,
Valiosas antiguidades,
Raras preciosidades,
Peças de arte nunca vistas
E outras muitas coisas mais.
J. J. Monteiro
"Macau ontem e hoje (1960 - 1984)"
in Macau vista por dentro,
2.ª ed., Macau: IIM, 2020, p. 443.
para saber +
António Aresta
in: Jornal Tribuna de Macau, 14.05.2025
Jorge A. H. Rangel
António Aresta
“José Joaquim Monteiro, um homem de valor”
in: Jornal Tribuna de Macau, 07.06.2024
Jorge A. H. Rangel
in: Jornal Tribuna de Macau, 7.06.2021
António Aresta
“J.J. Monteiro”
in: Jornal Tribuna de Macau, 10.03.2011
Redação: 20.02.2026
