2026/02/20

Camões nos versos de J. J. Monteiro


   O poeta J. J. Monteiro no Jardim Luís de Camões   
Foto em Macau vista por dentro, 2020, p. 442

   Desta gruta, que escutou o vate   
     que aqui cantou        
   a  Pátria, o Amor, a Saudade!   

J. J. Monteiro, 1913-1988
poeta português radicado em Macau

Poemas extraídos da sua obra
Macau Vista por Dentro


A venerável gruta do famoso vate
MARAVILHAS DE MACAU

Tens sempre a porta aberta, entra ó peregrino,
Pão, abrigo e carinho, acharás, afinal,
Neste luso cantinho, aqui tão pequenino.
Sim, china, amigo nosso, entra, não tenhas medo
E abraça o português, que só o mal combate;
Respeita esta cidade e admira aquel' rochedo,
A venerável gruta onde o famoso vate,
Luís Vaz de Camões, cantou, com voz maviosa,
O seu amor à Pátria e mais as suas tristezas!

J. J. Monteiro

"Macau vista de fora"
in Macau vista por dentro
2.ª ed., Macau: IIM, 2020, 76


Camões na História de Macau
OITAVAS

Factos mais importantes da História
Desta linda terra Macau, nobre e legal,
Quisera eu narrar, sem ter a glória
De a mim me acompanhar a musa ideal,
Que acompanhou Camões de alta memória,
Ao escrever no seu Livro Imortal
Os feitos duma gente resoluta,
Como Macau o ouviu naquela gruta!

É certo que o silêncio do Poeta
Não fala de Macau, nem nada diz
De ser a sua estada aqui concreta,
Talvez por se julgar muito infeliz
Com a morte da sua tão dileta
Natércia que, também sem ser feliz,
Morreu pensando nele e ele nela.
Aqui naquela gruta, longe dela.

Diz-me, ó gruta, se igual ao teu negror,
Não eram dele as queixas mil que ouviste?
E se não foi também com pranto e dor
Que a sua musa, então falando triste,
Assim disse, inspirando o bom Cantor:
– Alma minha gentil que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente!…

Gruta benigna*, sábia testemunha,       [* Expressões de Garrett em Camões 1824, 
seu amor à Pátria e mais também             Canto V, est. VI].
Dos lânguidos suspiros* que lhe punha
Sua alma saudosa, vendo além
Tão distante de si com quem mais supunha
Amá-lo, porque amou muito e bem,
Como esta mesma gruta lhe escutou
As queixas namoradas* que soltou.

Hoje, linda Macau, franca Cidade,
Orgulhosa se sente em ali ter
Um recanto de amor e de saudade,
Cheio de fresquidão, calma e prazer,
E o busto de Camões; olhando-o há-de
Muito brio ter a gente em pertencer
À mesma Pátria que o Poeta amou,
E que em seus versos tanto sublimou!

Pátria que todos nós aqui, do fundo
Do coração, amamos, vendo nela
A Mãe que mais heróis tem dado ao mundo
E outros varões ilustres, dignos dela;
Portanto, igual amor e brio profundo
Sentem nesta minúscula parcela,
Nós outros portugueses, por bem sermos
Da Pátria de Camões e por o lermos.

J. J. Monteiro

"Macau e a sua História"
in Macau vista por dentro
2.ª ed., Macau: IIM, 2020, 57-59


Camões na cidade de Macau
QUADRO DE MAGIA

Para além dos dois portões, 
Está o Jardim de Camões 
E ainda o novo museu 
Que tem por recheio seu 
A alindar as galerias 
Valiosas velharias
E muito antigo troféu.

Novo Museu de Camões
E, à volta, as habitações
Dos guardas e jardineiros, 
Tanques, estufas, viveiros, 
Árvores, sombra, frescura, 
Lindos tufos de verdura.
Alegretes e canteiros.

Por entre o denso arvoredo
Vê-se um ou outro penedo,
Junto à gruta de Camões 
Mirantes, caramanchões, 
Belos e umbrosos caminhos
E, sobre os ramais vizinhos,
Das aves suas canções.

Frescas ruas em declive,
Assim nos trouxe onde vive
A doce tranquilidade
Que oferece a soledade
Desta gruta, que escutou
O vate que aqui cantou
A Pátria, o Amor, a Saudade!

Longe da Pátria, exilado,
E de peito às musas dado
Num haurir de inspirações, 
Aqui, Luís de Camões,
Grande Adamastor da ideia,
Começou sua epopeia
Que é o assombro das Nações.

Poema que, à luz dos sóis,
Canta a Pátria dos heróis
E os esforços mais que humanos
Dos ousados lusitanos,
Mais fortes em valor fero
Que os priscos heróis de Homero,
Por seus feitos soberanos.

Gruta benigna que ouviste
De Camões a lira triste,
Nas suas amarguradas 
Penas, muitas espalhadas
Pelos teus verdes recantos, 
Os seus suspiros e cantos,
Suas queixas namoradas!

Lusíadas!… Pátrio tesouro,
Onde há só páginas d’ouro
A engrandecer Portugal!
Poema, Livro Imortal,
Que todos devemos ler
Como um sagrado dever
Do nosso Amor Nacional.

Gruta saudosa e querida
Que a grata e encarecida
Natureza caprichou;
Aqui como a edificou
Guarda ela, orgulhosa, o busto,
Do nosso Épico augusto
Que à sombra sua cantou.

De ano a ano sem faltar, 
A juventude escolar
Mais toda a gente em geral, 
Ante o busto do imortal
Poeta, numa romagem,
Prestam a sua homenagem
No dia de Portugal.

Pelas paredes da gruta
E ali noutra rocha abrupta, 
Lê o viajante que passa
Versos
duma essência e graça
Doutros bardos, com amor, 
Consagrados ao cantor 
Que decanta a lusa raça.

E quem passa, com certeza, 
Sente um cunho de tristeza 
E a sua alma aqui se inflama, 
Lendo os cantos de alta fama
Gravados neste rochedo, 
De Almeida Garret, Quevedo, 
De Tasso a Vasco da Gama.

Fica-te, gruta saudosa,
Entre a flora alta e viçosa
Deste jardim tão formoso, 
Recanto maravilhoso
De onde nos vamos com custo, 
Curvados, saudando o busto 
Do poeta harmonioso.

Olhem ainda a gentinha
Que goza a fresca sombrinha
Junto à gruta de Camões, 
Onde há belos pavilhões, 
Mirantes, bancos e mesas, 
Várias figuras chinesas, 
Bichos, bonecos, dragões!


E aqui mesmo à nossa roda
Encontra-se Macau toda
Cercada de tanta ilha;
Ao ver tanta maravilha, 
Tanto encanto e poesia, 
Este quadro de magia, 
Como a nossa alma se humilha!

Quão doce é viver assim, 
Sob as frondes dum jardim 
Como este, onde se aninha
E canta a inocentinha
Ave, sacudindo as penas 
E onde se vêem centenas 
De pessoas à sombrinha.

Ruas com vasos e flores
E frescos nos seus verdores
«Ficus», acácias, pinheiros, 
Palmeiras, caramboleiros, 
E pelas rochas sombrias
Trepa a hera e os «bons-dias»
E alastram-se os espinheiros.

«Árvores de São José», 
«Do pagode» e a flor de ipé, 
Lírios, cravos, açucenas, 
Goivos, rosas e verbenas
Dão-nos sombrinha e perfumes;
E ouvem-se os doces queixumes 
Das aves de lindas penas.

Encantos deste jardim
Que vamos deixar por fim, 


J. J. Monteiro

"Macau vista por dentro"
in Macau vista por dentro
2.ª ed., Macau: IIM, 2020, 135-7



O Jardim de Camões hoje
O MESMO JARDIM DE ANTES 

(1960? - 1983)
E daqui passo eu agora
Para o jardim de Camões...

À entrada, vasos com flores, 
Do Épico o busto, ao centro 
Da Gruta, que se viu cá 
Há «Vinte e mais Anos» já,        [Anos 60. Macau vista por dentro é escrito nesta década, 
Em que levei os leitores             embora venha a ser publicado apenas em 1983,
A ver Macau cá por dentro...      na obra homónima que também integra outros livros de poesia]

O mesmo jardim de antes
Cheio de encanto e verdura, 
De sombrosos arvoredos, 
Miradoiros e rochedos, 
Alamedas verdejantes
Onde há paz, calma e frescura.

Prover vão este jardim
(Brevemente e sem deslize, 
Como se pensa e é lógico) 
De um bom Jardim Zoológico
E oxalá que seja, sim, 
Um sonho que se realize...

De tão boas esperanças
Bem vivem presentemente
(P'ra poderem ver um dia 
A fauna mansa ou bravia)
As simpáticas crianças, 
Novos, velhos, toda a gente...

Se sonhos são ilusões, 
Que este não seja; e, dest'arte, 
Sem mudarmos de lugar, 
Vamos também visitar 
O amplo Museu de Camões 
Que deste jardim faz parte...

Vejamos, como os turistas, 
Artefactos sepulcrais, 
Valiosas antiguidades, 
Raras preciosidades,
Peças de arte nunca vistas
E outras muitas coisas mais.


J. J. Monteiro

"Macau ontem e hoje (1960 - 1984)"
in Macau vista por dentro
2.ª ed., Macau: IIM, 2020, p. 443.




para saber +


António Aresta
in: Jornal Tribuna de Macau, 14.05.2025

Jorge A. H. Rangel
in: Jornal Tribuna de Macau, 24.06. 2024

António Aresta
“José Joaquim Monteiro, um homem de valor”
in: Jornal Tribuna de Macau, 07.06.2024

Jorge A. H. Rangel

António Aresta
“J.J. Monteiro”
in: Jornal Tribuna de Macau, 10.03.2011







Redação: 20.02.2026

A VIDA DE CAMÕES