NA GRUTA DE CAMÕES
Tinhas de ser assim:
o primeiro
Encoberto
da nação.
Tudo ser bruma em ti
e claridade.
O berço,
a vida,
o rastro
e a própria sepultura.
Presente
e ausente
em cada conjuntura
do teu destino.
Poeta universal
de Portugal
e homem clandestino.
Miguel Torga
Macau, 10 de junho de 1987
in Diário – Vol. XV, Coimbra: e.a., 1990, p. 39.
Reprod. em Diário – Vols. XIII a XVI , Lisboa: Dom Quixote, 2011.
ERRÂNCIA
A voar por cima de Samarcanda,
aceno à súbita memória
de meus avós almocreves
que, por acaso, nunca aqui passaram
quando iam ao Porto
em machos guizalheiros,
e onde comiam tripas,
a buscar as especiarias de lá.
De primeira classe, num avião francês,
a enjoar champanhe e caviar,
vou a Macau falar de Camões,
em nome dele, e por eles,
obreiros dum império de ilusões,
vou, como novo andarilho,
garantir ao futuro que Portugal
terá sempre o tamanho universal
da infinita inquietação de cada filho.
Miguel Torga
5 de junho de 1987
in Diário – Vol. XV, Coimbra: e.a., 1990, p. 21.
Reprod. em Diário – Vols. XIII a XVI , Lisboa: Dom Quixote, 2011, p. 208.
Torga evoca Camões
JUN. 1987
Em junho de 1987, o poeta Miguel Torga, acompanhado da esposa, a Professora Andrée Crabbé Rocha, visitou Macau. Torga fora convidado pelo Instituto Cultural de Macau para o programa comemorativo de 10 de Junho, para uma conferência sobre Camões no Salão Nobre do Leal Senado. Convidado de honra, o poeta português irá presidir à inauguração da exposição fotobibliográfica acerca da sua vida e obra, bem como assistir à apresentação da sua obra dramática em três atos Mar (1941), encenada por A. M. Couto Viana.
A conferência sobre Camões proferida no dia 9 de junho no Salão Nobre do Leal Senado será um acontecimento registado no volume XV do seu Diário (de 20 fev. 1987 a 31 dez. 1989) e que sairia em opúsculo intitulado Camões, em novembro do mesmo ano.
Como observou António Aresta, "Não obstante a sua breve estadia em Macau, Miguel Torga produziu um conjunto de reflexões originais e criativas, cruzando a história dos povos com a vivacidade do olhar de um poeta que soube ser fraterno, crítico e sempre fiel aos seus valores." (Aresta 2028).
Camões, o maior de todos os portugueses
"Quatrocentos anos depois de a termos alargado até este extremo oriente, estamos aqui a despedir-nos de um recanto da pátria e a evocar Camões. Não, como disse, em termos formais, mas em termos factuais. É uma definitiva meta cronológica que irrevogavelmente assinalamos.
E, numa circunstância tão significativa, tudo quanto dissémos e fizéssemos à revelia do maior de todos os portugueses seria lamentavelmente negativo. Sem a bênção do seu nome e o critério da sua universalidade, nem daríamos um penhor válido de nós, nem poderíamos ter a certeza de voltar. De voltar eternamente.”
Miguel Torga
Macau, 9/10 de junho de 1987
in Camões,
Coimbra: impr Gráfica de Coimbra, 1987, p. 19.
para saber +
"Notícia de 9 de junho de 1987 – Camões de Miguel Torga"
in blogue nenotavaiconta, 9.06.2020
António Aresta
in Jornal Tribuna de Macau [online], 1.11.2018
João Botas
in Macau antigo, 17.06.2017
"Notícia de 7 de junho de 1987 – Miguel Torga"
in blogue nenotavaiconta, 07.06.2016
"Macau e a Gruta de Camões – Miguel Torga"
"Notícia de 9 de junho de 1987 – Macau, Camões e Miguel Torga"
in blogue nenotavaiconta, 09.06.2014
Cláudia Capela Ferreira
Romagens torguianas: "entre a saudade de não ter sido almocreve
e a melancolia de não ser astronauta" | [PDF]
Cadernos de Literatura Comparada, n.º 30 (6/ 2014),
Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, 409-422.
Isabel Mateus
A Viagem de Miguel Torga
Coimbra: Impr. Gráfica de Coimbra, 2007.
in Review of Culture - 2 English Edition [online],
Trad. João Libano.
Macau, 1987, p. 56.
Revista Macau, n.º - (jun. 1995).
Revista Macau, n.º 2 (jun. 1987).
Carlos Mendes de Sousa
Miguel Torga: vida e obra [cronologia]
in Espaço Miguel Torga | Facebook
Redação: 23.01.2026
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