2026/01/24

O poeta Miguel Torga na Gruta de Camões


 O poeta Miguel Torga na Gruta de Camões, em 10 jun. 1987
in Revista Macau, n.º 2 (jun. 1987).


NA GRUTA DE CAMÕES 

Tinhas de ser assim. 
O primeiro 
Encoberto 
Da nação. 
Tudo ser bruma em ti 
E clareza. 
O berço, 
A vida, 
O rastro 
E a própria sepultura. 
Presente
E ausente
Em cada conjuntura 
Do teu destino. 
Poeta universal 
De Portugal 
E homem clandestino. 

Miguel Torga
Macau, 10 de junho de 1987


ERRÂNCIA
    
A voar por cima de Samarcanda, 
    Aceno a súbita memória
    De meus avós almocreves
    Que, por acaso, nunca aqui passaram
    Quando iam ao Porto
    Em machos guizalheiros, 
    E onde comiam tripas, 
    A buscar as especiarias de lá
    De primeira classe, num avião francês, 
    A enjoar champanhe e caviar, 
    Vou a Macau falar de Camões, 
    Em nome dele, e por eles, 
    Obreiros dum império de ilusões, 
    Vou, como novo andarilho, 
    Garantir ao futuro que Portugal
    Terá sempre o tamanho universaal
    Da infinita inquietação de cada filho. 

Miguel Torga
    A voar por cima de Samarcanda
    5 de junho de 1987


Torga evoca Camões

JUN. 1987

Na sua visita a Macau em junho de 1987, o poeta Miguel Torga, 
acompanhado da esposa, a Professora Andrée Crabbé Rocha
proferiu uma conferência sobre Camões no Salão Nobre do Leal Senado, 
facto que registou no seu Diário, vol. XV
e que daria origem ao opúsculo 
Camões (Coimbra: impr. Gráfica de Coimbra, nov. 1987).

 
“Era preciso que um poeta português viesse aqui falar nesta hora final, 
para que ela não tivesse fim. E vim eu."
Miguel Torga
Macau, 9 de junho de 1987

"Quatrocentos anos depois de a termos alargado até este extremo oriente, 
estamos aqui a despedir-nos de um recanto da pátria e a evocar Camões. 
Não, como disse, em termos formais, mas em termos factuais. 
É uma definitiva meta cronológica que irrevogavelmente assinalamos. 
E, numa circunstância tão significativa, tudo quanto dissémos e fizéssemos 
à revelia do maior de todos os portugueses seria lamentavelmente negativo. 
Sem a bênção do seu nome e o critério da sua universalidade, 
nem daríamos um penhor válido de nós, 
nem poderíamos ter a certeza de voltar. De voltar eternamente.”
Miguel Torga
in Diário, vols. XV e XVI. 
Editora Planeta de Agostini, 2003.



para saber +



"Notícia de 9 de junho de 1987 – Camões de Miguel Torga"
in blogue nenotavaiconta, 9.06.2020

João Botas
in Macau antigo, 17.06.2017

"Notícia de 7 de junho de 1987 – Miguel Torga"
in blogue nenotavaiconta07.06.2016

"Macau e a Gruta de Camões – Miguel Torga"
in blogue nenotavaiconta10.06.2014

"Notícia de 9 de junho de 1987 – Macau, Camões e Miguel Torga"
in blogue nenotavaiconta, 09.06.2014









Redação: 23.01.2026

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