Carlos Morais José
n. Lisboa, 1963.
Poeta, escritor, editor e jornalista.
Licenciado em Antropologia pela U. NOVA de Lisboa.
Foi jornalista do diário português O Século
e do semanário O Independente.
Em 1990, com 26 anos, mudou a sua residência e atividade para Macau,
trbalhando também aí em vários jornais e revistas.
Foi diretor da revista mensal Face (Macau, n.º 1, maio 1993)
e atualmente coordena a revista trimestral Via do Meio
(Lisboa outono de 2023), consagrada à sinologia.
É diretor do jornal diário Hoje Macau, em língua portuguesa,
e responsável pelas editoras COD e Livros do Meio.
Grão-Falar
Carlos Morais José é vice-presidente da Associação
de Amizade e Intercâmbio Cultural de Macau
entre a China e os Países de Língua Portuguesa.
Tem várias obras publicadas e em diferentes géneros.
OBRA:
Crónicas:
Porto interior: onde se fala de portugueses, chineses, burgueses, filipinos, deputados, governadores, tailandeses e outros malteses neste Macau à beira-China implantado (Macau, 1993),
A Coluna da Saudade (Macau, 1994).
Editoriais:
Complexo de Édito (2004).
Banda desenhada:
Caze: um caso de ópio (1997), com desenhos de Patrícia Fonseca.
Ficção:
A morte são 4 noites (Macau, 1996),
O Arquivo das Confissões: Bernardo Vasques e a Inveja
(Macau, 2016. | 2.ª ed., Lisboa, 2018. | Trad. em inglês, 2019),
Cartas ao mundo tal qual o conhecemos (2020),.
Poesia:
Macau: o livro dos nomes (2010, 2.ª ed., rev. e aument., 2022),
Anastasis (Lisboa, 2013 ou 2019?), Visitações (2013), O Comedor de Nuvens (Macau, 2021).
Ensaios:
Ladrão de Tempo (Macau, 2020),
Nove pontos na bruma: textos sobre a China (Macau, 2022).
Edição:
Quinhentos poemas chineses: antologia de poesia (Lisboa, 2014)
Coord. António Graça de Abreu, Carlos Morais José;
A via do imortal / Li Bai (Lisboa, 2024); trad. e notas António Izidro,
ed., rev. literária e introd. Carlos Morais José.
Argumento cinematográfico / representação:
"Pe San Ie: o Poeta de Macau", filme de longa-metragem de Rosa Coutinho Cabral.
(Em torno do exílio voluntário em Macau de camilo Pessanha)
Co-autoria do arg. de Rosa Coutinho Cabral, Carlos Morais José e Rui Pedro Mourão.
Um Produção de Art8 e Nocturno Filmes, 2018.
Trailer no Youtube.
O ROMANCE "O ARQUIVO DAS CONFISSÕES"
edições e tradução
O Arquivo das Confissões: Bernardo Vasques e a Inveja
ROMANCE
Macau: Livros do Oriente, 2016.
Obra lançada em Lisboa em outubro de 2016
e na Fundação Rui Cunha, em Macau, em 13 de dezembro de 2016.
2.ª ed., Lisboa: Arranha Céus, set. 2018.
The Archive of Confessions: Bernardo Vasques and Envy
Trad. David Brookshaw
Macao: PraiaGrande Edições, 2019.
O livro perdido de Camõesna ficção de Carlos Morais José
O que aconteceu ao “Parnaso” de Luís de Camões?
por José Carlos Canoa
"O romance O Arquivo das Confissões: Bernardo Vasques e a Inveja (2016) tem 167 páginas repartidas por 27 breves capítulos numerados que se leem duma assentada. E todavia, a simplicidade da obra é aparente.
Logo à entrada, na “Advertência ao leitor”, a nota preliminar funciona também como informação ao inverso: sendo uma “história” é certamente ficção e se, por isso mesmo, não é de esperar “rigor” ou “justeza” próprios da História, a narrativa nela irá beber, tratando-se, portanto, de um romance histórico, com uma personagem como Luís de Camões, que tanto é ficcional como verdadeira, tal como o cenário da Ilha na costa oriental africana, o furto de um manuscrito valioso e alguns outros aspetos da viagem que era estabelecida entre o Reino e o Estado da Índia.
A natureza controversa do protagonista Bernardo Vasques e a ideia de ter existido em Macau um arquivo de confissões da comunidade são ótimos elementos ficcionais e envolvem o leitor no enredo simultaneamente fabuloso e credivelmente verdadeiro.
Complementarmente, no final da obra, Carlos Morais José regista nos “agradecimentos” as figuras da literatura, do cinema, da história e outras áreas do saber que o terão influenciado, entre elas, Helmut Schoeck, o autor de Envy: A theory of social behaviour (1966), que lhe proporcionará os fundamentos “científicos” para um pródigo exame da Inveja, outra protagonista da história.
Portanto, a narrativa de Carlos Morais José, para além de dialogar com a História de Portugal e a vida e a obra de Camões, configura e psico-romanceia Bernardo Vasques, desde a sua infância no núcleo familiar, passando pela comunidade académica de Coimbra e depois no grupo de viagem para a Índia, culminando em Macau.
Mas falemos do enredo e da organização da narrativa, construída em torno da leitura de um documento secreto, subtraído do Arquivo das Confissões, onde está retratada a dramática história de Bernardo Vasques, o homem que, devorado pela inveja, roubou na Ilha de Moçambique o Parnaso, um livro do grande poeta Luís de Camões.
O livro inicia-se no presente, com a voz de um padre inglês protestante que medita sobre o estado eufórico que experimenta o viajante quando “parte da sua terra e enfrenta o desconhecido” (José 2018:11); é o seu caso – finalmente “a bordo de um veleiro a caminho da China” (idem, 11). Quando o barco que o transportava atracou em Singapura, onde teria de esperar dois dias por um transporte para Macau, acaba por ficar hospedado com a esposa na estalagem portuária “The Peacock Inn”, a qual dispunha de uma taberna espaçosa e mal frequentada no rés-do-chão. A hora é tardia, chove. Temos localizado o cenário ideal, bem ao jeito camiliano e mesmo queirosiano, para o convite à confissão das personagens, para o seu recuar ao passado e, da parte do leitor, a sensação ilusória de estar a ouvir uma história verídica.
Incapaz de adormecer, o padre desce à taberna, onde um padre católico irlandês em trânsito, a troco de um copo de aguardente, lhe “contará uma história única e merecedora de atenção” (idem, 27). Fica então a saber que “um pequeno grupo de jesuítas em Macau decidiu colecionar confissões e delas fazer objeto de estudo para uma melhor compreensão da mente, da alma e do espírito.” (idem, 29), criando então “um Arquivo de Confissões, onde os crimes, os desvios, os pecados e as lamúrias, numa palavra, uma extensiva parte da alma humana, se desvenda de forma voluntária e na sincera súplica do perdão” (idem:30), ou seja, resume-nos o padre católico, “uma biblioteca que contém os males do mundo” (idem.31).
Perante a “inverosímil e fascinante história” do que considerou ser “os devaneios de um alcoólico ou de um louco” (idem:32), o padre católico tenta persuadi-lo passando-lhe um documento secreto – precisamente “a confissão de Bernardo Vasques, um português que viajou para a Índia no século XVI” (idem, 35). Estamos no cap. 4, assistindo a uma conversa que decorre num tempo presente, encontraremos doravante encaixada na narrativa outra narrativa, que pertence ao tempo passado. A narrativa inicial, a do personagem-narrador que é o padre inglês protestante, apenas será retomada no 27º e último capítulo, após terminar o relato contido no documento.
É precisamente esse documento, que ocupa 22 capítulos da sequência narrativa (cap. 5 – cap.26), que nos interessa. O documento, a confissão de Bernardo Vasques num tempo passado, teria sido transcrito pelo 1.º narrador, o padre inglês, pois o irlandês zelou pelo seu tesouro e levou-o consigo quando se sumiu de vez.
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Mapa da ilha de Moçambique in Itinerário de Jan Huygen van Linschoten (Amesterdão, 1595) |
assistiremos serão sempre do protagonista, Bernardo Vasques. E qual terá sido o crime que confessa? – O de ter roubado o “Parnaso” a Luís de Camões, na Ilha de Moçambique e, não lhe bastando, ter-lhe-á usurpado a própria identidade autoral desse livro.
Vivendo no tempo de Camões, zarpando na mesma rota marítima entre o Reino e o Estado da Índia, uma “nova porta que enfeitiçava a juventude” (idem, 43), natural seria que ele se cruzasse com o épico ou outros literatos seus amigos. É o que acontece, mas, ao contrário de Diogo de Couto, que com ele se junta no torna-viagem para Portugal, Bernardo Vasques avista-o na viagem de ida para a Índia. Tal ocorre nos caps. 12 a 14, o furto é executado no cap. 14.
No romance de Carlos Morais José, o Parnaso é um livro de poesia, o cancioneiro da lírica de Camões, o qual é furtado ao seu autor na Ilha e não no resto da viagem de regresso ao Reino ou já em Portugal; em vez de um amigo cronista, temos um inimigo poeta, uma espécie de poeta maldito, infetado pelos versos do Poeta (idem, 164), que se convence a si mesmo de estar a praticar o Bem, quando afinal está a servir o Mal (idem, 164). Torna-se um pecador em nome da inveja que o corrói, pois desejaria ser Ele, o inominado que é um Deus, o Absoluto em Poesia, mas que sabe ser incapaz de atingir, pois falta-lhe o talento d’Ele para ser Camões. Bernardo Vasques é o ser humano face ao poder da Arte, o sublime de uma obra-prima, que simultaneamente o exalta e oprime. Na impossibilidade de resumir a totalidade da experiência da leitura, tenhamos uma aproximação através de um excerto, que mostra uma das razões pelas quais o poeta Bernardo invejava o “príncipe dos poetas” a ponto de cometer um crime:
“A sua obra era demasiado bela, encadeava. Como escrever depois dele? Quantos poetas vindouros não susteriam o verbo depois de lhe conhecerem os versos, por darem conta da impossibilidade de os igualar, ainda menos de os superar. O desaparecimento dos seus escritos sossegaria o futuro, manteria abertos os portões da imortalidade aos poetas a haver. Não era apenas a minha existência ameaçada: durante séculos os escritores comparar-se iam com ele e partilhariam do mesmo desespero. Aquela obra era demasiado genial para lhe ser permitida a existência. Nós, os mortais, não aguentaríamos viver a sua sombra. Destruí-la seria um ato humanitário, uma bondade digna do grande amigo do Homem.” (José 2028:87).
Em A literatura e o mal Georges Bataille afirma que ela “é o essencial ou não é nada” e se essa essencialidade também se acha vinculada ao mal é porque a literatura tem interesse como arte total, uma arte que desafia o bem convencional e a moral normativa, que confronta, pois, o mal. Todavia, ocorrendo no extremo do possível e do perigo, essa intensidade literária poderá levar as personagens à ruína. Bernardo Vasques perde-se, é um Anjo decaído, um Dorian Gray cujo retrato é uma confissão que espelha a sua degradação moral. A sua admiração extremada é quase irracional (idem, 161), o seu desejo é inveja, assumindo uma dimensão trágica como em les feux de l’envie do teatro de Shakespeare estudado por René Girard (1990). Por seu lado, Helmut Schoeck na sua obra mais conhecida A inveja: uma teoria social (1966), argumenta que a inveja é um sentimento universal e inerente à condição humana, desempenhando um papel central nas dinâmicas sociais. Em O Arquivo das Confissões ela é a protagonista, ostentada no subtítulo da obra.
Mas quem roubou o Parnaso de Camões?
Este romance-tese, belo e profundo, que é O Arquivo das Confissões: Bernardo Vasques e a Inveja, de Carlos Morais José, ficciona de forma ousada e original a perda do “Parnaso de Luís de Camões”. A sua trama é imaginada, mas também ousada – convida-nos a conhecer o lado sombrio da natureza humana, a compreender o desejo que se reveste de inveja e também de culpa. A poesia de Camões é luz, encandeia, pode fascinar e cegar, exaltar e oprimir. E Camões, o seu criador, surge ora como um Deus omnipotente ora como um Fantasma obsidiante, nunca nomeado.
O mistério do desaparecimento do Parnaso inspirou esta narrativa contemporânea. O romance, ao refletir sobre a questão da inveja, com todas as suas implicações negativas e positivas, poderá ser a chave para a descoberta do verdadeiro “Parnaso” e do seu roubador. Para tal, será preciso pensar fora dos esquemas mentais convencionais e académicos.
Se, como suspeita Maria Augusta Lima Cruz, o trecho biográfico do Poeta na Década 8.ª da Ásia pode ser uma “’construção’ biográfica, elaborada por Couto, mais de 40 anos após o encontro em Moçambique”, não sendo mais que “uma das muitas reconstituições da vida de Camões, baseadas na exegese da sua produção literária e nos seus primeiros biógrafos. (Cruz 2024) – Onde está o “Parnaso”? Que obra conhecida ou pouco conhecida de um autor da época de Camões revela afinidades com o estilo literário camoniano, com a vivência no Oriente do soldado-poeta? Alguns estudiosos estiveram perto, interrogando-se porque é que alguns aspetos da vida e da obra com que se ocupavam não eram perfeitos, não encaixavam no sistema. Falta aceitar a inveja e a maldade para se poder chegar a uma eventual usurpação de identidade, como em Os Naufrágios de Camões de Mário Cláudio, ou chegar ao livro furtado, como na narrativa de Carlos Morais José."
José Carlos Canoa
in © "Os livros perdidos de Camões na ficção contemporânea"
comunicação apresentada no II Congresso do
Meio Milénio do Nascimento de Camões 1525-2025: Maputo & Ilha de Moçambique.
Em Moçambique, de 6 a 10 de junho de 2025.
Org. RCnA&A, U. Politécnica e U. Eduardo Mondlane, de Moçambique).
- Cartaz do lançamento do romance em Macau, na Fundação Rui Cunha, em 13 de dez. 2016.
- Capa da revista Via do Meio, n.º 1 (outono 2023): Que Vinho se bebe na China?, dirigida em Macau por Carlos Morais José. - Inteiramente dedicada à cultura chinesa, nas áreas do Pensamento, da História, da Etnologia, da Literatura e as Artes, etc., com colaboração de sinólogos de várias nacionalidades.
- “Pé San Ié: o Poeta de Macau” (2017), é um projeto da realizadora Rosa Coutinho Cabral e da produtora Maria Paula Monteiro. Uma longa metragem inpirada na vida e na obra de Camilo Pessanha.
para saber +
José C. Mendes
(em torno de Nove pontos na bruma: textos sobre a China, Macau, 2022)
Entrevista, em Hoje Macau, 9.03.2022
Rui Filipe Torres
em Hoje Macau, 22.10.2018
em Jornal Tribuna de Macau, 9.11.2018
Isabel Castro
Literatura, em Hoje Macau, 15.12.2016
Catarina Domingues (texto), Gonçalo Lobo Pinheiro (fotos)
in Revista Macau, jun. 2011
Redação: 29.08.2025