2023/02/13

Camões revisitado por Herberto Helder





Psique reanimada pelo beijo de Eros, 1793

Por António Canova (1757 -1822)

Museu do Louvre, Paris



O MOTE – o soneto de Camões


Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;

não tenho, logo, mais que desejar,

pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minh’ alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,

pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semideia
que, como um acidente em seu sujeito,
assim co a alma minha se conforma,

está no pensamento como ideia:
o vivo e puro amor de que sou feito,
como a matéria simples, busca a forma.






LUÍS DE CAMÕES
(1524-1580)

In: Camões, SonetosIntrod., fixação do texto, comentário e notas de Maria de Lourdes e José Hermano Saraiva. Mem Martins, Col. Biblioteca Universitária, 37, Europa América, 1985, p. 102.





AS VOLTAS – o poema "Tríptico" (parte I) de Herberto Helder


"Transforma-se o amador na coisa amada", com seu
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.

Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
É o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.
Transforma-se em noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.

Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.

E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo e do amor.





(1930-2015)
  • O amor em visita. - "plaquette" de 14 p. - Lisboa: Contraponto, 1958.
  • A colher na boca. Lisboa. Edições Ática, 1961.
  • Ou o poema contínuo. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004.
  • [Texto transcrito da Web, confrontando várias fontes]




LEITURAS


O amor revisitado

“Mas importa não esquecer que, tal como os surrealistas incorporam, transformando-a, a tradição petrarquista, Herberto Helder o mesmo fez pela via camoniana, como mostra um poema anteposto a O Amor em Visita, no livro A Colher na Boca, de 1961, em que o republicou. O soneto intertextual e paratextualmente reescrito – o célebre "Transforma-se o amador na cousa amada ... " - insere-se na verdade numa temática petrarquizante, que já tinha tido entre nós uma afloração, antes de Camões, no Cancioneiro Geral. As transformações a partir dele operadas por Herberto Helder são significativas do seu trabalho poiético de mutação das formas: 

"Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro. 
E a coisa amada é uma baía estanque. 
É o espaço de um castiçal, 
a coluna vertebral e o espírito 
das mulheres sentadas."

Como Camões, Herberto Helder poderia escrever: 

"E o vivo e puro amor de que sou feito, 
Como a matéria simples busca a forma." 

É uma forma poética nova que a matéria do amor e do erotismo, de desejo em desejo, sempre busca, numa língua outra, que de metamorfose em metamorfose o poeta reinventa.”

José Augusto Seabra
O amor revisitado num poema de Herberto Helder
Máthesis 6, 1997, Viseu, p. 190.



Camões transformado

“Acresce que o tipo de leitura que Herberto Helder faz de Camões se situa no âmbito de uma transgressão, pois o código do amor idealizado que normalmente se lê no soneto de Camões é aí erotizado, tornando-se subversiva. Por isso, ao desmistificar deste modo o cânone literário, Herberto Helder confronta ainda o leitor com a passividade associada à tradição, e, ativando-a, contribui para a sua transformação.

[...]

... não se trataria apenas de uma leitura desmistificante do amor platónico, mas também uma leitura do próprio processo de busca que o poeta realiza na escrita. E isso faz-se através da posse do texto, esse espaço «baía» onde o amador-poeta se renova e se transforma, com ele, transformando o mundo.”

Rui Torres
Revista Callema, n.º 1 (Outono-Inverno), 2006, 58-64.




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