23 de agosto de 2022

Encarar o nosso Camões a uma grande luz natural, por Camilo Castelo Branco

 





Camilo Castelo Branco (1825-1890)




O protagonista do sempre formoso poema [Camões, 1825] de Almeida Garrett é um Luís de Camões romântico, remodelado na fantasia melancólica de um grande poeta exilado, amoroso, nostálgico. A ideal tradição romanesca impediu, com as suas névoas irisadas de fulgores poéticos, passante de duzentos e cinquenta anos, que o amador de Natércia, o trovador guerreiro, fosse aferido no estalão comum dos bardos que imortalizaram, a frio e com um grande sossego de metrificação, o seu amor, a fatalidade do seu destino em centúrias de sonetos. Garrett fez uma apoteose ao génio, e a si se ungiu ao mesmo tempo príncipe reinante na dinastia dos poetas portugueses, criando aquela incomparável maravilha literária. Ensinou a sua geração sentimental a ver a corporatura agigantada do poeta que a crítica facciosa de Vernei e do padre José Agostinho apoucara a uma estatura pouco mais que regular.

Camões ressurgiu em pleno meio-dia do romantismo do século XIX, não porque escrevera Os Lusíadas, mas porque padecera de uns amores funestíssimos. O século XVIII citava-o apenas nos livros didáticos e nas academias eruditas, como exemplar clássico em epítetos e figuras da mais esmerada retórica. Tinha caído em mãos esterilizadoras dos gramáticos que desbotam sapientissimamente todas as flores que tocam, apanham as borboletas, pregam-nas para as classificarem mortas, e abrem lista de hipérboles e metáforas para tudo que transcende a legislatura codificada de Horácio e Aristóteles.

Luís de Camões, qual o figuram Garrett no poema trágico e Castilho no drama ultrarromântico, e as musas indígenas e forasteiras nas suas contemplações plangentes, é o que se requer que seja o mártir do amor, o soldado ardido, o talento menoscabado pela camarilha dos reis. Os maviosos sentimentalistas afizeram-nos a estas cores prismáticas – às refulgências das auroras e dos luares teatrais. Mal podemos encarar o nosso Camões a uma grande luz natural. Queremo-lo na tristeza crepuscular das tardes calmosas, na mesta solidão dos mares, nas saudades do desterro, no desconforto das primeiras precisões, vivendo da mendicidade do Jau – do escravo, como se alguma hora houvesse em Portugal escravos de procedência asiática – e das economias da preta, arrastando-se sobre moletas do adro de S. Domingos para o catre do hospital. Quem nos mostrar Camões à luz com que a história e a crítica indutiva elucidam as confusas obscuridades dos homens extraordinários – e por isso mais expostos à deturpação lendária – poderá avizinhar-se da verdade; mas, do mesmo passo, se desvia da nossa inveterada opinião, e talvez incorra em delito de ruim português.

Eu me vejo neste perigo e não me poupo às eventualidades da ousadia. Pretender exibir novidades inferidas de factos comparados e probabilidades em uma biografia tantas vezes feita e refeita, será irrisório atrevimento quando me as puderem contraditar com provas solidamente cimentadas.

[...]

Se Luís de Camões, em pureza de costumes, condissesse com a sobrexcelência do engenho, seria exemplar único de talento irmanado com o juízo. Não se conciliam as regras austeras da vida serena e pautada com as convulsões da fantasia. Amores de alto enlevo e de baixa estofa, o ideal de Catarina de Ataíde e as carnalidades das malabares e bailadeiras levantinas – o exalçar-se a regiões de luz divina e o cair nos tremedais do vulgo – essas vicissitudes que a si mesmo fazem o homem assombroso em sua majestade e miséria, tudo isso foi Camões, e em tudo isso foi semelhante aos génios eminentíssimos; mas nenhum homem como ele pôde redimir-se de suas fragilidades, divinizando os erros da imprudência, fazendo-se amar nos extravios, e imortalizando-se em um livro que, ao fechar de três séculos, alvoroça uma nação. É de nós todos esse tesouro [...].

Camilo Castelo Branco


In:
Camilo Castelo Branco - Luiz de Camões: notas biographicas. – “Prefacio da sétima edição do Camões de Garrett. Porto e Braga: Ernesto Chardron Editor, 1880.