2016/08/10

As duas máscaras de Camões ou o cavaleiro-humanista - por António José Saraiva

Visão de um cavaleiroc. 1504, por Rafael.
National Gallery, Londres.




“Seja como for, parece-nos que a esfinge camoniana cabe neste esquema: um fidalgo pobre, de família decaída, que teve uma educação esmerada como os que se destinavam ao sacerdócio. Como tantos outros que não conseguiam amesendar-se nas conezias ou nas abadias, na administração da casa real, ou nas capitanias do ultramar, desceu todos os degraus da miséria e achou-se agarrado pelas rodas que trituravam o homem pobre e inadaptado, triste quixote que o moinho de vento atirou ao chão, mas que nunca por isso perdeu as peneiras e os modos altaneiros.
Jamais foi capaz de compreender que o mundo da cavalaria estava morrendo. Mas no meio de seu naufrágio conservou o sentimento de quem era letrado, desses a quem competia entender e explicar o mundo. Esta era a sua grande força. Embarcado numa expedição militar, achava disponibilidade mental para escrever uma canção prodigiosa como a que começa “Junto de um seco, duro, estéril monte”. “Numa mão sempre a pena e noutra a espada”, tal foi, segundo as suas próprias palavras o seu ideal de vida.
Camões foi, em resumo, um cavaleiro-humanista, duas coisas perfeitamente inconciliáveis. Sob pena de não percebermos nem a sua vida nem a sua obra, temos de unir essas duas máscaras, que se negam uma à outra”.


António José Saraiva (1917-1993)

António José Saraiva, “As duas máscaras de Camões”,
in Para a história da cultura em Portugal, Vol. II,
3.ª ed., Lisboa: Europa-América, 1972, 153.
[publicado originalmente in Comércio do Porto, 14.10.1958.]