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2024/06/30

Junho de 2024 - "Mês de Camões", série de posts de Eduardo Ribeiro no Facebook



Mês de Camões

JUNHO 2024 | no Facebook



Durante o mês de junho, Eduardo Ribeiro, historiador e camonista, divulgou na sua página do Facebook diversos e eruditos posts em homenagem a Camões e ao meio milénio do nascimento do Vate.

No dia 21 do mês de junho, o historiador apresentou ainda a comunicação "Camões e Couto: o encontro providencial e histórico em Moçambique na torna-viagem para o reino (1569)"na Biblioteca Municipal de Paredes.

Eduardo Ribeiro tem divulgado as suas ideias e a sua investigação séria e rigorosa em diversos artigos, comunicações e palestras, as quais estão ampla e profundamente expostas nas suas obras, de que se destacam:
Camões em Macau: uma verdade historiográfica (2012, reed. 2020)
Camões no Oriente e outros textos (2012, reed. 2018)
Camões in Asia: (1553-1570) (2016).



ÍNDICE

1. Camões em Almeirim
2. Camões e Luís Fróis em Macau
3. Os Penedos de Camões em Macau
4. O ano (1624) em que um Historiador aponta o caminho
5. Duas obras fundamentais de Diogo do Couto
6. Colmatando o hiato da biografia oriental de Camões
7. As margens hospitaleiras do rio Mecon
8. Labirinto camoniano
9. Poeta já popular e erudito antes de partir para o Oriente
10. Cinco mistérios sobre Camões (vídeo de Isabel Almeida, presidente da Secção Luís de Camões da S. G. L.)
11. Uma «gruta» para Camões (texto meu publicado na newsletter de junho da Fundação Jorge Álvares)
12. Porque não foi Camões na expedição a Alcácer-Quibir
13. Couto não engana: 1562 foi a data de partida de Camões para Macau
14. Camões, o confessor e o revedor
15. Vilar de Nantes, «terra dos pais e avós de Camões», como a gente da terra proclama
16. Uma enciclipédia oriental (1563), e Camões nela!








16. Uma enciclopédia oriental (1563), e Camões nela!

"Ontem, 28 de junho, assisti ao lançamento da edição dos ‘Colóquios dos Simples e Drogas e Coisas Medicinais da Índia’ (encurtamento do longo e título original), de Rui Manuel Loureiro e Teresa Nobre de Carvalho, no auditório da BNP - Biblioteca Nacional de Portugal.

Depois da sua edição em Goa em 1563, os ‘Colóquios’ estiveram trezentos anos à espera de serem reeditados. Veio a acontecer em 1872 pela Imprensa Nacional e muito poucas se lhe seguiram.

Contudo, teve imediatamente uma repercussão europeia, graças às «sucessivas traduções e adaptações publicadas um pouco por toda a Europa», a começar com Charles de l’Écluse em Antuérpia (1567), Juan Fragoso em Madrid (1572), Anibale Briganti em Veneza (1576), Cristóvão de Costa em Burgos (1578), e a acabar nas imensas informações transmitidas por Orta usadas por Linschoten (Amesterdão, 1596).

Os ‘Colóquios, como aliás o seu longo título sugere, não é apenas um ‘tratado de história natural’, mas aborda também ‘questões tocantes a medicina prática’, bem como ‘muitas outras coisas boas, para saber’, tais como «a história e a geografia do mundo oriental, as práticas sociais e culturais dos seus habitantes, a diversidade linguística, as crenças religiosas, as configurações políticas e militares, mas, sobretudo, a densa rede de negócios de produtos naturais que se estendia por todo o Oriente […]» (da Introdução, de RML). 

Enfim, ‘uma espécie de enciclopédia das extensíssimas regiões orientais que se estendiam para leste do cabo da Boa Esperança, e que há mais de meio século estavam a ser desvendadas pelas navegações e explorações portuguesas’. Não admira que tivesse sido recebido com um «uau!», como agora faríamos.

Charles Boxer lembra, e bem, que «é o livro mais interessante e mais original publicado pelos Portugueses na Índia nos séculos XVI e XVII».

Já me havia referido aos ‘Colóquios’ no meu «Camões em Macau: uma verdade historiográfica», por um motivo muito simples: é nesta ‘enciclopédia’ que aparece publicada uma composição de Camões! Em 1563, ou seja, em vida do Poeta!

Sempre achei curioso como Camões, nos anos 1560, sem nada publicado, com o Epos ainda longe de ser escrito (e com pouca gente sabendo-o às voltas com a epopeia de todos nós), aparece, ELE, um Zé Ninguém (?), a interceder pelo ‘físico’ Orta, desde 1534 no Oriente, médico da elite nobre do Estado da Índia, amigo e protegido de Martim Afonso de Sousa (ex-governador do Estado da Índia), com quem viera para o Oriente e a quem dedica a obra.

Tenha-se em conta que Garcia de Orta conseguiu a notável proeza de reunir o patrocínio ou o beneplácito de um conjunto muito relevante de personalidades, decerto reflexo do prestígio de que gozava na sociedade goesa (‘privilegio’ assinado pelo Conde do Redondo, beneplácito de D. Gaspar de Leão, o arcebispo de Goa, responsável pela Tribunal do Santo Ofício da Inquisição, autorização de impressão e circulação do inquisidor D. Aleixo Dias Falcão), e no meio destas personalidades de relevo aparece, em 1563, o ainda ‘Zé-Ninguém’ Luís Vaz de Camões! É claro que só pode ser entendido por o Poeta ser das relações do conde vice-rei desde os tempos do reino.

A composição poética do nosso Vate é, justamente, uma dedicatória ao Conde de Redondo, vice-rei do Estado da Índia (1561-1564), pedindo-lhe «favor e ajuda» para o «grão volume» «que dará na Medicina novo lume».

Quando os ‘Colóquios’ veem a luz do dia, ‘nos primeiros meses de 1563’, já Camões estava em Macau (1562-1564). Tenha-se em conta que Orta levou anos a preparar este tratado e os preparativos da edição, propriamente dita, começaram muito antes, sujeitos os trabalhos a um editor muito bom, João de Endem, mas muito doente, segundo Storck, e o seu companheiro substituto com pouca prática, pelo que os erros e os lapsos tipográficos são imensos, preenchendo uma errata, elaborada por Orta, de vinte páginas, não sendo exaustiva, segundo o próprio autor!

«Teve na empresam alguns erros por faltar o principal empresor e ficar a obra em mãos de hum homem seu companheiro, que não era ainda destro na arte de emprimir», segundo uma carta do físico Dimas Bosque, publicada em anexo a esta edição.

Trabalhos, pois, começados com muita antecedência, ainda com Luís Vaz em Goa, tendo feito a entrega da ode ‘Aquele único exemplo’ ao autor dos ‘Colóquios’ muito antes de partir para Macau na Nau do Trato, em abril de 1562, com o capitão-mor Pero Barreto.

Estas coisas preparam-se com muita antecedência, ainda hoje. E temos de contar com o processo de revisão de provas que, segundo Loureiro, foi de tal forma inconsistente que deu origem a diferenças textuais significativas entre os exemplares que iam saindo dos prelos goeses.

O próprio alvará do conde vice-rei é de 5 de novembro de 1562, abona Storck, p. 629, que adianta uma coisa notável: que «o Camões estava ausente (em Tiracole e Cochim) ou muito ocupado» à época da impressão. 

Curioso ter-se dado conta disso! Claro que estava ausente, mas bem longe dali, já em terra de chins: Amacao."

Eduardo Ribeiro
Da série ‘’Mês de Camões’’


15. Vilar de Nantes, «terra dos pais e avós de Camões», como a gente da terra proclama.

"De facto, a investigação do Brigadeiro de Aeronáutica José Guilherme Calvão Borges sobre o ramo pioneiro dos Camões transmontanos aponta para que já aí estivesse instalada a família no início do séc. XVI. 

O avô de Luís Vaz homiziou-se em Vilar de Nantes por crime de homicídio cometido em Coimbra, e já ali residia em 1504, ano em que nasceu o pai do nosso Poeta, Simão Vaz de Camões.

Seu avô, aliás, veio a ter uma extensa prole, todos “pessoas muito letradas”, um deles, Miguel Vaz, foi juiz dos órfãos em Chaves, contemporâneo de Cristóvão Borges, em comarcas adjacentes.

Cristóvão Borges foi o autor e proprietário do ‘Cancioneiro de Cristovam Borges’’, terminado em 1578, ainda em vida do Poeta.

Luís Vaz pode ter nascido aqui em Vilar de Nantes, como é sugerido pelo Brigadeiro Calvão Borges (1997), mas se assim foi, pouco tempo terá desfrutado desta terra maravilhosa junto à serra do Brunheiro e, mais adiante, da serra de Larouco (um antigo deus celta), pois em 1528 já Simão Vaz estará em Lisboa como tesoureiro da Casa da Índia e terá vindo acompanhado da família.

Seja como for, a tradição é a de que esta casa de Vilar de Nates, que fotografei, foi a casa «dos avós e pais de Camões».
Eduardo Ribeiro
Da série ‘’Mês de Camões’’


14. Camões, o confessor e o revedor

"Há dias ouvi algures falar-se da religiosidade de Camões a propósito do soneto ''Verdade, Amor, Razão, Merecimento'', em que o nosso Poeta, perante a dificuldade de o entendimento humano alcançar o que seja da vida ou da morte, ou da impotência da razão e da contradição entre saber e experiência, concluía que o melhor mesmo era acreditar em Cristo:
«Mas o melhor de tudo é crer em Cristo».

Parece mais uma profissão de fé do que ciência elaborada.

Num dos meus textos publicados na coletânea ''Camões no Oriente'' (Edição de Autor, 2ª edição, 2018, pp. 143 a 147) abordo o tema. Dizia eu que o comentador da edição de ‘Os Lusíadas’ de 1613, o Padre Manuel Correia, confessor e amigo do Poeta, terá sido ele quem o apresentou, mal desembarcado do Oriente, ao futuro censor Bartolomeu Ferreira. Assim se terá iniciado a conversão de Camões.

De facto, Manuel Correia, vendo-o doente e frustrado, leva-o para a catequese de S. Domingos, onde é acolhido e começa a sua caminhada salvífica. Uma coisa leva à outra e terá tido a liberdade de frequentar a biblioteca do Convento.

Correia, cedo reconhecendo o talento do filho da sua velha amiga e paroquiante (a mãe) leva-o ao recém-empossado revedor, o qual, soprado de prosápia literária e empáfia pelo ofício novo, mais novo e provavelmente com vontade de agradar ao mais velho, não esquece também as instruções que terá recebido do Inquisidor-Geral, apostado em morder as canelas aos Câmaras.
Provavelmente tê-los-á introduzido um ao outro na aula teologal de S. Domingos. O revedor, já de olho regalado às voltas com ‘Os Lusíadas’ e com curiosidade de o conhecer pessoalmente; Camões, interessado em obter bom despacho à epopeia, não deve ter feito nenhuma resistência e deixou-se conduzir pelo seu orientador espiritual: parte de si mesmo havia ficado espalhada pelo mundo, de tanto a Fortuna o trazer peregrinando (Lus., VII, 79), como ele diz: ‘Por que ficasse a vida /Pelo Mundo em pedaços repartida. Não admira, pois vinha fragilizado’.

E, «desde que aportara a Lisboa, se fizera muito amigo dos frades de S. Domingos para lhe deixarem passar o poema por limpo e santo, e não suspeitarem dele», segundo Luís Franco CORREIA, seu amigo, que com ele e Fernão Mendes Pinto costumava encontrar-se numa «taberna que havia ao fundo da rua em que morava e o visitei muitas vezes ali levado por nossa antiga amizade» (ap. COELHO, 1980, p. 35).

Quando Manuel Correia, a propósito das oitavas do episódio da ilha dos Amores, refere nos seus Comentários que o poeta as emendou «por conselho dos religiosos de S. Domingos desta Cidade, com quem tinha grande familiaridade», «fala nos religiosos e não no revedor em particular», «mas é com Frei Bartolomeu que entende a observação...» (Aquilino RIBEIRO, 1974, II, p. 124). Claro, faz sentido: o revedor era justamente um desses religiosos.

Frei Bartolomeu, entre o pendor para corrigir tudo o que fosse para além do cânone doutrinal e o «regalo» com que terá começado a ler a obra literária, terá muitas vezes balanceado entre a indulgência e a rigidez e, dessa «luta verso a verso entre o poeta e o censor», saiu à estampa a edição de 1572.

Como já disse, idêntico regalo tem também o leitor moderno em acompanhar Aquilino no desenho que traça desta luta do poeta pela integridade do Poema épico."
Eduardo Ribeiro
Da série ‘’Mês de Camões’’


13. Couto não engana: 1562 foi a data de partida de Camões para Macau

"Diogo do Couto, na versão extensa da Década 8ª., escreveu que Camões foi para 
«a Ilha de Moçambique», «em companhia de Pero Barreto Rolim quando [Rolim] foi entrar naquella capitania, porque desejou elle [Rolim] de lhe fazer bem, e o pòr em estado de se poder ir pera o Reyno por estar muito pobre porque [por causa] da viagem que [com ele] fez à China por provedor dos defuntos [...]".

Ou seja, indica-nos que Camões foi com Pero Barreto à China na Viagem da Nau do Trato. Ora, como podemos ver pela lista dos capitães-mores dessa Viagem (anual), a «Viagem pera a China e Japan», publicada por Charles Boxer no seu «Fidalgos no Extremo Oriente» (Fundação Oriente - Museu e Centro de Estudos Marítimos de Macau, Macau, 1990), o ano em que o capitão Pero Barreto fez a viagem, por conta de seu tio Francisco Barreto, o ex-governador da Índia, foi... 1562.

Perante isto, qualquer pessoa imediatamente intui que Camões foi para Macau nesse ano de 1562, e como «provedor dos defuntos» da viagem. Certo?

Errado, meus senhores. Querem certidões, certificados, documentos, declarações assinadas e autenticadas. Para azar dessas cabecinhas, há mais qualquer coisa, muitas mais aliás, mas por todas indico só mais esta:

em 1569 Diogo do Couto, então a caminho do reino, após dez anos na milícia do Estado da Índia, leva consigo debaixo do braço o seu (Primeiro) Diálogo do Soldado Prático, que apresentou ao rei em Almeirim, com a ideia de receber uma tença.
Ora, nesse 'Diálogo', no cap. 25, o então (ainda) dialogista diz que a China não tardaria muito seria Índia, o que seria muito mau, designadamente porque aquele porto era um «valhacouto dos tocados pela enfermidade da Santa Inquisição» e diz-nos uma coisa espantosa, isto é, o «capitão-mor» que «se achou em um Domingo com seiscentos homens ouvindo missa», em trajo de ver a Deus, com «capas de escarlata», nesse «porto da China», não era senão «Pero Barreto Rolim, muitas vezes designado apenas por Pero Barreto», e que o mencionado «porto da China» «trata-se de Macau certamente»!

Opinião do coutiano António Coimbra Martins, editor e comentador desta 1ª edição crítica deste «Primeiro Diálogo do Soldado Prático», de 2001.

Mais uma vez encontramos um erro do copista: «o capitão-mor» «João Barreto» não é «João», «está escrito João em vez de Pero», «por lapso do copista», pois «a personagem em apreço» é Pero Barreto.

Conclusão: o porto era Macau e o capitão-mor era Pero Barreto. O ano? Coimbra Martins não tem dúvidas: 1562.

Quem terá sido a fonte? O encontro em Moçambique, em 1569, entre Camões e Couto, não nos oferece muita dúvida. Couto, que nunca saiu da costa «indostânica», recolheu o informe do próprio vate, Luís de Camões.

Camões foi, pois, irrecusavelmente, para Macau, como provedor dos defuntos, nessa Viagem do Trato de 1562."
Eduardo Ribeiro
Da série ‘’Mês de Camões’’


12. Porque não foi Camões na expedição a Alcácer-Quibir

"Aquando do lançamento de ‘Os Lusíadas’, em março de 1572, D. Sebastião tinha 18 anos. Duvido que tenha gostado do que leu, se é que leu. Pode ter apenas escutado a leitura de certas partes, designadamente em Almeirim, terminada que foi a quarentena à chegada da Índia, em abril de 1570. De facto, [o Poeta] pode ter acompanhado Diogo do Couto à audiência que teve com o rei, «para lhe dar as novidades da Índia».

A publicação do livro avançou porque houve na corte quem se tivesse apercebido da importância da epopeia, designadamente o Conde do Vimioso, que foi vedor da Fazenda até 1573. Segundo António José Saraiva, logo em 1570 o manuscrito foi passado a limpo por um copista, à ordem do conde de Vimioso, D. Afonso de Portugal, num códice de que resta a portada.

Contudo, mais tarde o rei pode não ter gostado da farpa que o Poeta lhe lançou naquela estância 26 do Canto IX, «em que, sob a figura de Actéon, Camões censurou ao rei os excessos venatórios», obviamente porque enquanto se entretinha na montaria, descurava os interesses da 'res publica'. Para o Poeta, ainda agora chegado do Oriente, já era claro que Actéon (D. Sebastião), por causa da caça, fugia da bela forma humana, ou seja, da convivência feminil, esquivando-se aos deveres de rei.

Se o Poeta soube disso, é porque já estava na boca do povo a displicência do rei-donzel, e pode Camões ter-se limitado a dar voz às preocupações populares. Camões, tão preocupado como todo o reino por esta misoginia, endereça ao monarca um grave aviso, lembrando como Actéon acabou por ser
‘na caça tão austero
de cego na alegria bruta, insana,
que, por seguir um feio animal fero,
foge da gente e bela forma humana 
(Lus., IX, 26, 2-4)

despedaçado pelos seus próprios cães (cães que, numa interpretação alegórica admissível neste contexto, figurarão os áulicos do soberano).

O rei pode ter percebido tudo isso, sendo uma boa razão para não querer o nosso Vate na expedição a África, em 1578, e optar antes pelo «hábil videirinho» Diogo Bernardes (Aquilino, p. 217) que Costa Ramalho não considera (nem Aquilino) amigo «sincero» de Camões, e com razão.

Falo disto e de muito mais no meu «Camões no Oriente» (2.ª ed., 2018, edição de Autor), na crónica ‘A pena de Camões num Reino de colusão entre a espada, a caldeirinha e a pimenta (1570 - 1580)’, com toda a bibliografia a que recorri."

Eduardo Ribeiro
Da série ‘’Mês de Camões’’

Foto: Eduardo Ribeiro no campo de Alcácer-Quibir, em abril de 2016.



11. Uma «gruta» para Camões

"Este ano assistiremos, como de costume, a mais uma romagem cívica e cultural à «gruta» de Camões em Macau no dia 10 de junho, ‘’Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas’’, promovida pelo consulado de Portugal em terra de chins. É já uma tradição secular, pois foi justamente durante o governo de Rodrigo Rodrigues, entre 1922 e 1924, que se iniciou essa hoje tradicional romaria.

Na verdade, o que ali vemos não é propriamente uma «gruta», e à estranheza não foram alheios os poetas Eugénio de Andrade e Couto Viana. Já no meu Camões em Macau: uma verdade historiográfica (Mythus, 2.ª ed., prefaciada pelo Historiador João Paulo Oliveira e Costa) falei disto e expliquei que não há ali gruta nenhuma, nem o nosso Poeta quinhentista se refere a qualquer gruta na sua obra.

O que podemos encontrar no cimo da colina de Patane são vários penedos e é justamente a «penedos» que Luís de Camões se refere em vários poemas, quase de certeza ali escritos, seja no soneto "Onde acharei lugar tão apartado" ou na écloga dos Faunos, ou mesmo no poema épico (Lusíadas, V, 59, 1-2).

Quase que adivinho que foi outro poeta, émulo de Camões, o sadino Barbosa du Bocage, quem terá sugerido a ideia da homenagem ao governador, ou mesmo à Representação britânica em Macau, com quem se relacionou e cujos membros conheciam e apreciavam Camões (recordemo-nos do convívio do poeta com o próprio William Beckford em Lisboa e do soneto "A Formosura desta fresca serra" que, para espanto e deleite do aristocrata, lhe recitou).

De facto, o jardim dos «Penedos de Camões» pertencia à Casa Garden, arrendada aos britânicos da Companhia das Índias Orientais desde pelo menos 1785, e era aí que a tradição apontava ter-se acoitado o nosso Poeta, aliás atestada por um documento primordial, o famoso título dos bens de raiz do Colégio de São Paulo em Macau, onde figura identificado um «chão do campo de Patane» adjacente «aos Penedos de Camões», a dois passos do Colégio.

Bocage esteve em Macau entre 1788 e 1789, alojado pelo governador interino Lázaro Ferreira, e não terá deixado de se socializar com a comunidade europeia e muito menos com a da Casa Garden, cujo horto de Camões visitou.

O primeiro busto ao Poeta terá sido erguido após a visita de Bocage, ainda no séc. XVIII (em 1794 já lá estava), por entre três dos vários penedos que ainda hoje encontramos no Jardim de Camões. Não quer dizer que fosse exatamente nesses em que ele se terá acoitado (eu diria até que não, pois eram os que estavam mais expostos às intempéries), nem entre os penedos encontramos a configuração exata de uma «gruta».

Segundo Wilhelm Stock a menção a uma «gruta» surgiu mais tarde, pela pena do biógrafo e diplomata D. José Maria de Souza Botelho (1758-1825), Morgado de Mateus, na edição de ‘Os Lusíadas’ de 1817, em Paris, pois «anteriormente, nenhum biógrafo havia mencionado a lenda», mas é um facto que já antes o An Authentic Account of the Embassy of China undertaken by order of the King of Great Britain to the Emperor of China, de George Staunton, publicado em 1797, refere a existência dessa «gruta» e até publica um «desenho», de William Alexander, da «Gruta de Camões em Macau» e já antes o Journal of an Embassy to China (1794), de Aeneas Andersen, mencionado pelo Monsenhor Manuel Teixeira, menciona não só a «gruta» como o «busto».

De uma maneira ou doutra, a referência à gruta, sendo curiosa, não passa de uma vénia de homens cultos à tradição do Renascimento de olhar para o glorioso passado clássico e fazê-lo reviver a todo o transe. De facto, era comum suceder, «na Idade Média e no Renascimento», «transferir aos modernos os factos e os ditos mais singulares dos antigos», como lembrou Giovanni Papini.

São muitos os exemplos, sendo talvez o mais notório o da lenda de Camões, de braço alçado, a salvar o Epos no meio das ondas revoltosas, que não é senão a réplica tardia do caso de Protágoras que pereceu num naufrágio em viagem para a Sicília, de braço levantado com toda a sua obra, ou o caso de Júlio César, em situação idêntica, de braço levantado a tentar salvar o manuscrito dos seus Comentários às Guerras da Gália, numa batalha nas costas de Alexandria.

A convocação dessa imagem de recolhimento do nosso vate numa gruta não é, pois, senão mais um exemplo disso, a que o nosso Morgado, também ele, não resistiu. Não a inventou, mas fez-lhe eco na sua luxuosa e restritíssima edição de Os Lusíadas, ajudando a consagrar a ideia de uma «Gruta de Camões» em Macau. D. José Maria de Souza Botelho terá querido situar o Poema épico «na genealogia de outros textos escritos em grutas, que emergem dos recantos escuros da Terra como profecias píticas, soprando verdades escondidas», nas palavras de Edward Wilson-Lee! De facto, terá sido numa «gruta» em Patmos que o Apocalipse de São João terá sido escrito, foi numa «gruta» perto de Belém que São Jerónimo terá redigido a sua tradução da Vulgata, e terá sido numa «gruta» que o polímata maiorquino Raimundo Lúlio terá decifrado os segredos da sabedoria árabe, isolando-se durante nove anos com um escravo muçulmano.

Se no cimo do outeiro de Patane não faltavam «penedos», já gruta não havia nenhuma. Mas a exemplo de outros mitos, ficava bem, ao que parece, inventar uma para o nosso Camões em Macau, donde ele terá feito brotar o epopeico canto do «ilustre peito lusitano». E assim se criou a lenda da gruta, na verdade formada, como ainda hoje se pode ver, por «três penedos graníticos, dois em pé e um sobreposto, que serve de sobrecéu».

Eduardo Ribeiro
Da série ‘’Mês de Camões’’

Texto publicado originalmente em
Newsletter Junho 2024, da Fundação Jorge Álvares, Lisboa.



10. Cinco mistérios sobre Camões

VÍDEO
Isabel Almeida,
"professora e especialista em literatura portuguesa dos séculos XVI e XVII,
explica alguns mistérios em torno de Luís Vaz de Camões,
através da escassa documentação que resistiu até aos dias de hoje."
in: jornal Público [online], 8.06.2024

Eduardo Ribeiro
Da série ‘’Mês de Camões’’
in Facebook, 9.06.2024




9. Poeta já popular e erudito antes de partir para o Oriente

"Num dos postais camonianos anteriores mencionei a descrição física do nosso Vate quinhentista que Severim de Faria faz em 1624, com base, parece-me óbvio, em informação recebida do seu correspondente Diogo do Couto.

Acontece que há uma outra descrição (física e psicológica) numa das anedotas que corriam sobre Camões (a anedota CIV):
«Foi nas feições do corpo alto de estatura, largo das espáduas, de cabelo ruivo, no rosto sardo, e torto dos olhos; era de entendimento agudo, do juízo claro e raro engenho, na humanidade visto, na ciência versado, nas armas destro, no ânimo valente, concorreram com ele muitos homens de habilidade, os quais ora em casa de um ora em casa doutro passavam alegremente a vida em disputas curiosas, ditos galantes, deleitosa conversação; os poetas davam-se motes e grosavam-nos de repente; os que o não eram julgavam de melhor composição».
(in ''Anedotas Portuguesas e Memórias Biográficas da Corte Quinhentista. 
Histórias e ditos galantes que sucederaõ e se disseraõ no Paço'' 
[Contendo matéria biobibliográfica inédita de Luís de Camões e outros escritores do séc. XVI], Livraria Almedina, Coimbra, 1980: x)

Na biografia que Maria Vitalina Leal de Matos traça do vate numa edição das «Obras Completas de Luiz Vaz de Camões», I volume, por si organizada e anotada, acrescenta mesmo que era «a imagem que os contemporâneos tinham de Camões antes da partida para a Índia.»

Enfim, o nosso Poeta, que antes da partida para a Índia, em 1553, era já um poeta conhecido (consta que Jorge de Montemor veio de propósito de Espanha para o conhecer), frequentava a Casa de D. Francisco Coutinho, que lhe irá ser decisivo na sua biografia oriental, terá sido discípulo de André de Resende, e era «uma personagem popular, capaz de ditos com grande a-propósito, bom humor e intervenções cortesãs, como é o caso das voltas à cantiga 'Perdigão perdeu a pena'.»

Os dezassete anos de exílio no Oriente não terão sido fáceis, mas foi nesse caldinho de vicissitudes e amargura que lhe terão transformado o humor e veio a cantar o «ilustre peito lusitano»."

Eduardo Ribeiro
Da série ‘’Mês de Camões’’



8. Labirinto camoniano

"Conhecia o labirinto camoniano, mas depois de ter lido esta semana tanta, tanta coisa sobre o Poeta quinhentista, saída em jornais e revistas cá da praça, perdi a esperança de encontrar a saída.

Depois de anos e anos a ler e 'estudar' Camões, e, já agora, a escrever sobre ele (et pour cause), perante o silêncio em redor (o normal), eis que chega a panturra que me deixa entediado, senão mesmo nauseado, com tantas coisas e loisas. É um fartar, vilanagem!

Li algumas coisas interessantes, não desminto, mas também tanta bacorada a acompanhar o pitéu, que é um grito de alma. Algumas já arredadas/esclarecidas por Jorge de Sena, Luís Albuquerque, António José Saraiva, João Paulo Oliveira e Costa, mas quem quer saber?

A que mais me deixou de boca aberta foi a de um ilustre amigo que, vendo as suas teses da mitografia de Camões em Macau arredadas em todas as frentes e com inúmeros argumentos, se saiu com esta 'boutade': a de que nem há a certeza de que Camões tenha estado na China!!!

Enfim... primeiro fiquei de boca escancarada (pensei para comigo: não há pachorra!), mas conhecendo-o como o conheço, concedi-lhe logo o benefício da dúvida e até percebi, e rapidamente consegui fechá-la.
Ele não quis senão dizer o óbvio, que naquela época não havia registo nenhum, qualquer documento, sobre a presença de Camões em Macau, como, obviamente, eu poderia replicar, homologamente, que também não há certidão nehuma do nascimento de Camões, e no entanto eu não recuso a existência do Poeta! (Ou será que ele não existiu? Sei lá, já começo a desconfiar de tudo).

No meu livro até dei um exemplo interessante da passagem de Fernão Mendes Pinto por Macau pois, por sorte, sublinho por sorte e para sorte nossa, ele escreveu de Macau, em 1555, uma carta na sua qualidade de irmão jesuíta (também vestiu essas vestes) e ficámos sabendo, de fonte provada, que ele passou por lá.
Se não fosse isso, quem se atreveria a declará-lo, recorrendo às «deduções» de que fala o historiador João Paulo Oliveira e Costa no seu prefácio ao meu livro principal (vd. excerto infra)?

De Camões não tivemos essa sorte, por isso temos de ir em busca de outras fontes, aquelas que já indiquei profusamente, tantas são, não só às «deduções» e ao conhecimento da História naquelas paragens, mas designadamente às obras do dialogista Diogo do Couto (1569) e do cronista Diogo do Couto (1615) que, vejam lá a coincidência, é a mesma pessoa. Será que ele terá mesmo existido?

Não tenho esperança de que não venha a escancarar de novo a boca. Quero, sim, destacar as palavras do grande Historiador João Paulo Oliveira e Costa no prefácio a «Camões em Macau: uma verdade historiográfica»:

«O modelo de análise utilizado segue de perto todas as boas práticas da História, dando valor primordial aos testemunhos mais antigos, procurando pistas em todas as folhas possíveis de identificar e sabendo que as crónicas são, sem dúvida, o elo mais fraco da construção do discurso historiográfico.
A resposta directa à pergunta que motivou o livro assenta precisamente nos testemunhos antigos, muitos produzidos por contemporâneos ou pela geração que se lhes seguiu. É a força desses testemunhos directos que me dá a convicção de que o livro resolve cabalmente o problema que se propôs investigar.
«Noutras matérias da biografia camoniana, o autor chega às suas propostas através de um aturado sistema de deduções, o que é muito comum quando trabalhamos o século XVI.
Com efeito, a documentação dessa época que chegou aos nossos dias é muito escassa e a construção de uma biografia exige sempre um trabalho semelhante ao de um detective que necessita de criar nexos de casualidade entre as diferentes pistas de que dispõe.
Nesses casos, as conclusões apresentadas são menos seguras; quer isto dizer que podem ser contraditadas pela descoberta de nova documentação que, eventualmente, esclareça melhor os temas em causa.
Todavia, enquanto esses achados não ocorrerem (o que pode nunca vir a suceder) as conclusões apresentadas neste livro devem ser entendidas como muito prováveis e verosímeis, pois assentam numa lógica irrepreensível baseada num bom conhecimento das práticas da época em estudo, livrando-nos de anacronismos tão em voga no nosso tempo."
Eduardo Ribeiro
Da série ‘’Mês de Camões’’
in Facebook, 8.06.2024



7. As margens hospitaleiras do rio Mecon

"Há tempos descobri na minha biblioteca uma revista com um lápis a marcar uma página com sublinhados. Tinha ficado à espera de voltar a essas páginas porque algo me chamara a atenção. Tinham passado, porém, quase dez anos.
Ao ler de novo o artigo do jurista e diplomata Isócrates de Oliveira, fiquei siderado. Tinha acabado de descobrir mais uma peça para o quebra-cabeças ‘Camões e Macau’. O articulista faz-se eco de uma ‘Histoire du Cambodge’ do historiador francês Achille Dauphin-Meunier (1961, p. 64), que me apressei a procurar em bibliotecas e fui encontrar na da Fundação Oriente.

O historiador francês, ao mencionar a presença dos portugueses e castelhanos no delta do Mecon no séc. XVI, numa área que era conhecida por Cochinchina, evoca uma tradição local segundo a qual o nosso vate teria sofrido um naufrágio, depois do qual teria sido colhido e dedicado uma vintena de versos ao Camboja e às margens hospitaleiras do seu rio (o Mecon).

O facto de o historiador mencionar o naufrágio na latitude do Mecon não me surpreendeu de todo, dado que não acredito que desconhecesse ‘Os Lusíadas’, mas o que me chamou a atenção foi a menção a ter sido durante o reinado de Baròn Reacha, que reinou de 1566 a 1576, com a particularidade de ter sido regente, uns anos antes da morte do pai.

O trecho da obra de Dauphin-Meunier a que me refiro é este
«Sous le règne de Barom Reacha, le grande poète portugais Camoens, l’auteur des Lusiades, aborda au Mékong. Son navire fit naufrage dans le Mékong, mais Camoens put sauver des eaux le manuscrit de son epopée et, reconnaissaint, il consacre au Cambodge e ‘aux bords hospitaliers’ de son fleuve une vingtaine de vers.»
Isócrates de Oliveira, ao mencionar essa tradição nascida no Camboja, exulta com a menção feita pelo historiador francês, dizendo que a informação é valiosa, mas cai no pecado de duvidar que possa ter sido durante o reinado de Barom Reachea, por este, diz ele, só ter começado a governar em 1566, isto é, Isócrates de Oliveira estará a raciocinar com a cabeça orientada para a errada historiografia tradicional dos anos 1550 (vd. uma das postagens publicadas).

Como se deduz, foi o historiador francês que, na minha opinião, acertou na mouche, como ele diria na sua língua. Não consegui descortinar qual terá sido a fonte de Dauphin-Meunier (não a indica, provavelmente por integrar a própria narrativa da tradição), mas, de facto, foi mesmo durante o reinado de Barom Reachea I (1566-1576) que Camões, perdido o seu navio, teve de ficar por 'hospícios alheios degradado' (Lusíadas, VII-80) durante um longo período de tempo.

É isso que se encaixa na cronologia que proponho desde 2012, após a estadia de Camões em Macau entre 1562 e 1564.

Termino com uma frase de Isócrates de Oliveira:
«Camões de facto permaneceu largo tempo no Camboja […], durante um longo período, talvez até anos. […]. Teve mesmo tempo de conviver com o povo e aprender dele as suas crenças, que na época representavam um sincretismo de ritos animistas e ensinamentos budistas: 'a gente dele crê, como indiscreta / (sem discernimento) que pena e glória têm despois da morte / os brutos animais de toda sorte' (Lusíadas, X, est. 127) (OLIVEIRA, 1975, p. 85)

Esta é só mais uma peça, a juntar às outras, que conferem credibilidade e rigor ao estanciamento de Macau na década de 1560. Isoladas, talvez não valessem nada, juntas são uma autêntica muralha que não só não pode ser ignorada, como me parece, até outros informes ou indícios, inultrapassável.

Recordo o que .um outro Historiador, João Paulo Oliveira e Costa, concluiu após ter lido e apresentado a 2ª edição, revista e atualizada, do meu ‘Camões em Macau: uma verdade historiográfica’ (2021) em sessão da Secção Luís de Camões da Sociedade de Geografia de Lisboa em 3 de julho de 2022: «se alguém tinha dúvidas, deixe de as ter, pois Camões esteve em Macau de certeza nos inícios dos anos 1560 do séc. XVI.»

Eduardo Ribeiro
Da série ‘’Mês de Camões’’



6. Colmatando o hiato da biografia oriental de Camões

"Vimos no postal camoniano anterior como Diogo do Couto é fundamental para Camões e Macau. 

Graças ao duplo testemunho do grande historiador, conhecido um desde 1917 (como velho cronista) e o outro desde 2001 (como jovem dialogista), podemos finalmente colmatar alguns hiatos no que toca à biografia de Camões no Oriente, respondendo à grande dúvida da historiografia camoniana:

por onde andou Camões nos anos 1560?

Façamos então uma recapitulação de tudo o que tenho vindo a defender e a escrever desde 2012:

tendo sido libertado pelo vice-rei D. Francisco Coutinho, logo que este foi investido em setembro de 1561 no governo do Estado da Índia, embarca em abril de 1562 como provedor dos defuntos da viagem na Nau do Trato com Pero Barreto, na ''Viagem pera a China e Japam'' desse ano, permanece em Macau os dois anos que a tradição consagra, deixa Macau em 1564 (ou, no mais tardar, em 1565, dependendo das monções) e sofre o naufrágio na latitude do Mecon (mar da China), então pertencente ao império de Camboja, governado pelo rei Barom Reacha I (1566-1576).

Nessa altura, o litoral desta região, que os portugueses designaram por Cochinchina, era frequentado pelos portugueses ou por necessidade de escala, enquanto aguardavam a mudança da monção, ou por comércio, corso, temporal e desvio de rota, ou naufrágio, missão diplomática ou de evangelização, e em algumas situações para apanhar transporte que os levasse a outro destino (THOMAZ, 1994, p. 256; MOURÃO, 2005, p. 230; DAUPHIN-MEUNIER, 1961, p. 63).

Nessa região, o nosso vate terá sido acolhido por compatriotas, após o naufrágio, e recebido cuidados de saúde de monges budistas.
A isso se referirão as estâncias 79 e 80 (v. 2) do canto VII e estâncias 127 (vv. 6-8) e 128 do canto X, ap. STORCK, 1897, pp. 594-95, que entende ainda que o Poeta os apelida de “indiscretos’’ porque nutrem crenças ilusórias sobre a migração das almas através de corpos de animais e homens (ibidem). DOMINGUES (1980, p. 393) faz-se eco desta caridade budista.

Após tempo indeterminado, o nosso Vate terá seguido para Malaca numa qualquer nau de mercadores portugueses ou mesmo num baixel de indígenas que para lá o tivesse conduzido (STORCK, cit., p. 595).

Terá então, a partir de Malaca, visitado a fortaleza de Ternate, para onde normalmente seguia uma armada portuguesa em busca do cravinho, e regressado nela para Cochim.
A menção no Canto X, 132, às ilhas do cravinho:

Vê Tidore e Ternate, co fervente
cume, que lança as flamas ondeadas. 
As árvores verás do cravo ardente, 
co sangue português inda compradas,

parece resultar de um testemunho direto, debatendo-se os autores quanto ao período da viagem, que tanto pode ter sido efetuada agora, como pode ter sido efetuada ao serviço da Coroa, terminado que foi o triénio a que estava obrigado (1553-1556), como em tempos admiti (vd. o meu «Camões em Macau, 2021, p. 372).

Chegado à costa do Malabar, embarcou por fim, em finais de 1567, com Pero Barreto para Moçambique, como Diogo Couto abona na Década 8.ª (versão extensa)."

Eduardo Ribeiro
Da série ‘’Mês de Camões’’


5. Duas obras fundamentais de Diogo do Couto

"Neste quinto postal camoniano (do Mês de Camões) venho falar de duas obras de Couto com um interesse ÚNICO para Camões e Macau.

A primeira trata-se de um manuscrito encontrado em 1917 na Biblioteca Pública do Porto que, para espanto de todos, não era senão uma outra versão da Década 8.ª de Diogo do Couto (1542-1616).

Maria Augusta Lima Cruz, que fez a recensão e a comparação de ambas as versões, esta e a que se conhecia desde o séc. XVIII, não tem dúvidas em dizer que esta versão é apenas um borrão e que a original está, até hoje, por aparecer. E diz mais ainda: que esta versão, a partir de então conhecida como a ''versão extensa'' (Códice do Porto), é a que diz o que importa sobre Camões e Macau.

Nela o cronista revela que Camões foi como «provedor dos defuntos» da Nau do Trato, capitaneada por «Pero Barreto», na viagem que, com este, «fez à China». Transcrevo o que a versão extensa revela:
«... o qual [Camões] tinha ido aquella fortaleza [Moçambique] em companhia de Pero Barreto Rolim quando [Rolim] foi entrar naquella capitania, porque desejou elle de lhe fazer bem, e o pòr em estado de se poder ir pera o Reyno por estar muito pobre porque [= por causa] da viagem que [com ele] fez à China por provedor dos defuntos...», etc.
Haverá dúvidas? Alguém poderá, de boa fé, dizer que há outro sentido a tirar deste texto?

Ora, acontece que Pero Barreto foi, justamente, o capitão-mor da Nau do Trato no ano de 1562, segundo a lista dos capitães-mores de Macau, que eram, simultaneamente, e por inerência, os capitães da Nau do Trato.

Ora, conforme foi trazido a lume por Rui Manuel Loureiro (2000 ) e Luís Filipe Barreto (2006), em 1560 já o porto da baía de Ama (Macau) era o único e exclusivo porto utilizado pelos portugueses na triangulação mercantil Malaca - Macau/Cantão - Japão, como demonstrei abundantemente nas minhas obras e conferências com dados adicionais.

Não há dúvidas que foi nessa ‘Viagem pera a China e Japão’ que Camões foi para a China, e que essa China é já Macau. Quando Camões, n' Os Lusíadas (X, 131), se refere à Ilha que «meio escondida», «donde nasce a prata fina», «que responde de longe à China», é de Macau e em Macau que está a falar.

De resto, se em 1917 (por Diogo do Couto, o cronista) tínhamos essa informação, em 2001 passámos a ter a comprovação disso por Diogo do Couto, o dialogista, com a publicação nesse ano de 2001 da primeira edição crítica do ‘Primeiro Soldado Prático’ (1569) de Couto, pois é aí que ele transmite, no cap. 25, que a China por esse andar não tardará a ser a Índia e que em 1562 se rezou missa com 500 portugueses com o capitão Pero Barreto.

Para não haver dúvidas, acrescento que as conclusões são do próprio editor e comentador da edição, o Professor António Coimbra Martins.

Como Couto não militou durante os dez anos que serviu o Estado da Índia senão na «costa indostânica», parece óbvio que a fonte do nosso (então) dialogista, então com 27 anos, não é senão o nosso Poeta, com quem se encontrou em Moçambique (maio de 1569) e conviveu durante a viagem para o Reino (de novembro a abril de 1570) e, depois, no reino, até Couto regressar definitivamente para o Oriente em 1571."

Eduardo Ribeiro
Da série ‘’Mês de Camões’’





4. O ano (1624) em que um Historiador aponta o caminho

"Depois de os portugueses se terem fixado definitivamente no porto mercantil de Amagao em 1560, os anos foram passando e, décadas depois, na geografia mental de cada um, China era já sinónimo de Macau.
Quando se falava de China, era a Macau que se referiam. O relevo que se dava não era ao estabelecimento mercantil, mas ao gigantesco Império do Meio a que ele pertencia. Compreensível.
Dir-se-ia que o vulgar cidadão luso, frequentador daquelas paragens, sabia muito bem que, para os chineses, só a China contava. O conde de Arnoso, nas suas Jornadas pelo Mundo, publicadas depois de ter visitado, em 1887, Hong Kong, Macau, Xangai, Tianjin, e Pequim, como secretário da embaixada que ali se deslocou para assinar o Tratado sobre a tutela portuguesa de Macau, compreendeu isso muito bem e diz isso desta maneira (p. 196):
«Já o dissemos e não nos cansaremos de o repetir: para o china só uma coisa existe no universo: a China. Mais nada!».
Os portugueses de Quinhentos percecionaram isso muito bem: para os chinas só a China, ponto final. Por isso, dar relevo à omissão de Amagao pelas fontes primevas, NÃO tem significado nenhum. É a opinião do escritor Austin Coates ao dizer:
«o prólogo de uma edição d’ Os Lusíadas publicada em Lisboa em 1613 refere que Camões visitara o Oriente - o que na geografia da época significava ter passado por Macau.»
Aliás, o próprio Camões peca dessa displicência, ao mencionar, n’ Os Lusíadas, «o Japão, a terra que, meia escondida, responde / De longe à China.»
De longe à China! Repare-se: a China, embora sendo já Macau. Mas Camões estava demasiado perto dos acontecimentos e a estrofe do Poema Épico citada, quando foi escrita, ainda Macau tinha apenas, literalmente, uma dezena de anos, e nem ele imaginaria quanto iria durar, ainda, essa tal terra na China.

Só com o decorrer de muito tempo, quando se veio a verificar que o entreposto era para durar e a erosão da memória se começou a fazer sentir, é que as novas gerações começaram a interrogar-se sobre o que significava, para os portugueses, o topónimo China. E mais ainda um historiador meticuloso como Severim de Faria!

China? Mas onde é isso? Então sim, houve necessidade de se mencionar especificamente Macau em textos ou em biografias. E isso veio efetivamente a acontecer quando, finalmente, em 1624, Manuel Severim de Faria, então com cerca de 40 anos, faz essa menção explícita na biografia que fez do Vate, dizendo claramente que a China onde Camões havia estado era Macau.

Mas esta menção feita por Severim de Faria é importante por um motivo fundamental para um historiador: porque ele teve a oportunidade de obter o informe através de um seu correspondente fiável e ‘autêntico’: o cronista Diogo do Couto.

De facto, vários autores (LOUREIRO, 1998, p. 55, VASCONCELOS, 1897, p. 654, STORCK, 1897, p. 134, Coimbra MARTINS, 2001, p. 242) apontam esse facto: Diogo do Couto conheceu e conviveu com Camões anos no Oriente, e só pode ter sido dele que Severim de Faria recolheu a série de informes importantes sobre Camões, designadamente uma descrição minuciosa da aparência física do Poeta, a única que se conhece:
«de ‘meã estatura, grosso e cheio no rosto e algum tanto carregado da fronte’; que ‘tinha o nariz comprido, levantado no meio e grosso na ponta; que o afeiava notavelmente a falta do olho direito’ e que ‘sendo mancebo, teve o cabelo louro que atirava a açafroado’, e ainda que não sendo ‘gracioso na aparência’, ‘era na conversação muito fácil, alegre e dizidor’ e, ‘já sobre a idade deu algum tanto em melancólico’.»

Severim de Faria era historiador, noticiarista, apreciador de manuscritos, senhor de uma biblioteca cheia de preciosidades, que recuperou e salvou da destruição, e tinha a noção da importância para a História daquilo que se registava em documento e da necessidade de o preservar.
Como bom autor moderno que já era, não deixou de se preocupar com a descrição física do seu biografado, ao contrário dos ‘cronistas medievais’, que ‘não procediam desse modo’. Esses, segundo João Gouveia Monteiro (2017, p. 75), ‘escreviam em parte com finalidades mais imediatas, e as personagens sobre as quais redigiam eram conhecidas da maior parte dos seus ouvintes/leitores. Veja-se, por todos, o caso de Fernão Lopes que, do Condestável Nuno Álvares Pereira, que ainda terá conhecido pessoalmente, se limitou a dizer que ‘era homem de pouca e branda palavra’ (idem, p. 77), e nada mais!

Ora, para a biografia de Camões de 1624, onde terá ido o chantre de Évora buscar tanto detalhe? Terá sonhado, terá inventado, terá ficcionado? Logo ele? Terá fantasiado a descrição física do vate, como inventou o resto, designadamente que o nosso Vate esteve em Macau?

Parece ser de bom tom ter tido uma fonte. Qual? Quer-me parecer que é lógico e de boa ciência histórica presumir que a fonte é a correspondência trocada com Diogo do Couto, que foi amigo do Poeta e que veio a ter a importância que se descobriu no séc. XX, em 1917, para o conhecimento da biografia oriental de Camões.

Quem mais senão Diogo do Couto a dar-lhe essa e outras informações? Parece óbvio, certo? Severim de Faria é, pois, uma carta importante no baralho de cartas camoniano. Felizmente há muitas mais cartas no baralho. Não foi só Manuel Severim de Faria a mostrar-nos o caminho. Não.
Vamos continuar a ver isso…
Eduardo Ribeiro
Da série ‘’Mês de Camões’’



3. Os penedos de Camões em Macau

"Neste terceiro postal camoniano gostava de vos falar de um documento, encontrado em 1911 na Biblioteca da Ajuda. Trata-se de um título de bens de raiz do Colégio de São Paulo, pertença da Companhia de Jesus em Macau.

Nesse documento, ao identificar-se um terreno cuja venda está em causa, aparece identificado como o ‘chão do campo dos patanes aos Penedos de Camões’. Isto é, uma propriedade da Companhia de Jesus que está a ser vendida e é descrita como fazendo limite com uns ‘Penedos de Camões’. Exatamente assim: os penedos de Camões.

Não se pode negar a importância desta menção. Pela designação e pela data (é de pelo menos 1606, diz Monsenhor Manuel Teixeira), este documento é praticamente contemporâneo da presença (1562-1564) do Poeta no cume do outeiro de Patane nuns Penedos, num dos muitos ali existentes, e diz bem de como o conhecimento desse facto era muito forte entre as gentes, e absolutamente indiscutido. Fosse por quem fosse, do soldado ao capitão, deste ao fidalgo, ou do mercador ao letrado.

Por todos em geral mas pelos padres jesuítas em particular... De facto, como Luís Filipe Barreto indicou (Macau - Poder e Saber, sécs. XVI e XVII, 2006, pp. 114, 115), a Companhia de Jesus estabeleceu-se definitivamente em Macau em 1562, fixando residência definitiva em Santo António, ao Patane, com a chegada, nesse ano, dos missionários jesuítas Luís Fróis e Giovanni Battista de Monte em 24 de agosto e, em 1563, com a chegada em 29 de dezembro do primeiro grupo de jesuítas que vieram para se fixar no estabelecimento (Francisco Perez, Manuel Teixeira, e o 'irmão' André Pinto).

Como tamnbém já disse na postagem anterior, quer Camões, quer Fróis, chegaram a Amagao em 1562, embora em naus diferentes, o primeiro na Nau do Trato com o capitão Pero Barreto, o segundo em finais de agosto, com o rico mercador Diogo Pereira, como «capitão-mor dos portugueses» por dois anos, numa medida a todos os títulos «excecional», como ecxplica Rui Manuel Loureiro no seu «Fidalgos, Missionários e Mandarins: Portugal e a China no século XVI» (Fundação Oriente, 2000).

Macau já era, em 1560, o porto definitivo e exclusivo dos portugueses na costa chinesa e, em 1562, estes ainda não estavam autorizados a construir edificações perenes. Camões escolheu, pois, para se acoitar enquanto viveu em Macau, não a embarcação onde havia vindo, pejada de ratos e outras bichezas, piolhos e percevejos, para não falar do cheiro fétido que exalava do porão e dos cordames, mas seguramente um dos penedos do outeiro adjacente ao porto interior onde a Nau do Trato fundeou.

Fróis sabia do facto. Assim, quando, anos depois, os missionários jesuítas tiveram de identificar um terreno seu confinado com os penedos do Poeta, não têm dúvidas em o mencionarem como fazendo limite com os ‘Penedos de Camões’ sobranceiros ao porto interior.

A historiadora Beatriz Basto da Silva, sempre atenta à sua terra de adoção, não hesitou de, muito pertinentemente, fazer constar na sua «Cronologia da História de Macau» (3.ª ed., reformulada e aumentada, Livros do Oriente, 2015), para o ano de 1562, depois de ler em Luís Filipe Barreto (citado) sobre a primeira instalação permanente dos jesuítas na zona de Sto. António, na colina de Patane, mas também, como ela escreve, as minhas propostas sobre o assunto que, entretanto, haviam sido publicadas em 2012 no meu ‘Camões em Macau’, o seguinte:
«Esta informação reforça a convicção de que expressões como os ‘Penedos de Camões’, as ‘bandas de Patane’ propriedade dos Jesuítas, consagram a presença de Luís de Camões.»

A tradição começava a transmutar-se em comprovações tangíveis, documentais, como os amantes das certezas tanto gostam, a comprovar a justeza da memória das gentes de Macau. Mas o séc. XX seria fatal para os cépticos, os caturras que ignoram ou omitem informação fundamental, como virá a contecer em 1917, 1971 e, imagine-se, em 2001.
É verdade, já no séc. XXI. Veremos isso.
Eduardo Ribeiro
Da série ‘’Mês de Camões’’

Foto do Autor num dos penedos de Camões em Macau


2. Luís Vaz de Camões e Luís Fróis em Macau

"Na 4.ª feira, 29 de maio, assisti à última das sessões do curso da Academia Observador dedicado aos Descobrimentos Portugueses, que culminou com chave de ouro: a vida e a obra de um homem invulgar e universal, o nosso Infante D. Henrique (1394-1460).

Mas não é dele que vou falar nesta postagem camoniana, mas sim sobre o padre jesuíta Luís Fróis, pois, a certa altura, o conferencista, o grande e preclaro Historiador João Paulo Oliveira e Costa (e não estou a abusar dos adjetivos), fez uma revelação: vai dedicar-se à biografia de Luís Fróis!!!

Não podia ter ficado mais feliz. Luís Fróis é outro homem fora de série e, para o caso que me interessa, cruzou-se com Camões, com a maior das probabilidades, no porto de Amagao (Baía de Ama), no delta do rio Pérola, nos Mares do Sul da China.

Já em 29 de maio de 2016 aqui coloquei um texto a que dei o título de «O encontro (mais do que) provável de dois literatos» e que reproduzo de novo:

Luís Fróis (1532-1597) cedo foi para o Oriente (com 16 anos, mais precisamente). Embarca em 1548 na carreira da Índia com outros nove jesuítas.

Estava em Goa quando Camões (1524-1580) aí chegou em 1553. Entre 1555 e 1557 fixou-se em Malaca, mas, de regresso a Goa, ainda aí veio encontrar Luís de Camões. Completou a sua educação e formação religiosa e aí pronunciou os seus votos como padre em 1561.

Ambos partem em abril de 1562 para o Extremo-Oriente:
Fróis, com destino a Terras do Sol Nascente, onde se vem a fixar por cerca de trinta anos; Camões, como provedor dos defuntos (é o cargo a que Diogo do Couto menciona na versão extensa da Década da Ásia - VIII) da 'Viagem pera a China e Japão', tendo ficado apenas dois anos no novel porto de Amagao.

Só que não foram no mesmo navio. Camões viajou na Nau do Trato, com o capitão da Viagem D. Pero Barreto Rolim, que fazia pela 3.ª vez essa Viagem, sempre por conta do tio, Francisco Barreto, que havia sido governador da Índia de 1555-58.

Já Luís Fróis parte com outro jesuíta (Giovanni Battista de Monte) em viagem de preparação para a instalação da Companhia em Macau, que veio a verificar-se no ano seguinte, na zona de Santo António, distante da primeira e única igreja, com o nome provável de Santa Maria, na colina de Patane. Vai, portanto, no navio do rico e influente mercador Diogo Pereira, que havia sido amigo de Francisco Xavier e é protetor dos jesuítas (e sócios nos interesses mercantis conjuntos).

Diogo Pereira vem nomeado como capitão-mor do porto de Macau por dois anos (1562-1564) e chega a Macau em 24 de agosto. A regra era a de os Capitães-Mores da Viagem do Japão atuarem como governadores de Macau, «tal como era determinado nas suas licenças ou cartas-patente», mas esta foi uma exceção, neste particular ''período de confusão'' de que falam C. Boxer e R. M. Loureiro.

Diogo Pereira terá cedido o exercício das funções de ''provedor dos defuntos '' da cidade ao ''provedor dos defuntos'' da Viagem, no período em que ali esteve como capitão-mor de Macau, justamente o período que o nosso Poeta quinhentista ali estanciou. Camões, como se sabe, não passou de Macau, como claramente diz no seu Poema Épico (X, est. 131, 3-8).

No ano da chegada (1562), o capitão-mor Pero Barreto «se achou em um Domingo com seiscentos homens ouvindo missa» no estabelecimento de Macau.
É Diogo do Couto que o atesta, no cap. 25 do seu ‘Primeiro Diálogo do Soldado Prático’ (de 1569), que algumas cabecinhas caturras preferem ignorar. O dialogista (e futuro cronista) só pode ter recebido este informe do próprio Poeta na ilha de Moçambique em 1569, quando ambos aí se encontram e juntos navegam para o reino.

Estiveram ambos os Luíses, portanto, sob o mesmo teto assistindo à missa, quiçá com o Padre jesuíta Luís Fróis a celebrá-la. Nesse mesmo ano de 1562 partem três navios, de Macau para o Japão, segundo Luís Filipe Barreto.

Num deles vai Fróis. Tinha 30 anos. Descontando uma curta estada em Macau (1592-1595), viveria o resto dos seus dias no Nippon, e aí falece em 8 de julho de 1597.
Virá a ser o autor do ''Tratado das contradições e diferenças de costumes entre as gentes da Europa e a província do Japão'', de que Oliveira e Costa fala no seu ''O samurai Negro'' (igualmente no Dicionário da Expansão Portuguesa, vol I) e também autor da ''Historia do Japam'' que Valignano tudo fará, com sucesso, para não seguir na carreira da Índia na torna-viagem para o Reino. Fica esquecida e nos arquivos dos jesuítas em Macau e só virá a ser publicado em meados do séc. XX.

Quanto a Camões, parte de Macau muito provavelmente em 1564 ou, quando muito, em 1565 e é acolhido, após naufrágio, nas águas do Mecon no reinado de Barón Reacha I (1566-1576).

Sabe-se que em 1567 já estava em Cochim, Índia Portuguesa, de onde parte, no final do ano, para Moçambique com D. Pero Barreto Rolim, que ia assumir as funções de capitão de Sofala e Moçambique.

Com a partida de Fróis para o Japão em 1562, os dois homónimos nunca mais se encontrarão. Mas o literato Fróis terá sabido da publicação do Poema épico de Camões, e provavelmente recebido e lido um exemplar do mesmo, tendo em vista a rápida difusão de 'Os Lusíadas' quer no Reino quer no ultramar, de que Loureiro fala no seu ''A Biblioteca de Diogo do Couto'' (também em O Samurai Negro vemos uma alusão a essa particularidade).

Aguardo, obviamente, com muita expetativa a biografia de Luís Fróis de João Paulo Oliveira e Costa."
Eduardo Ribeiro
Da série ‘’Mês de Camões’’


1. Camões em Almeirim

Resumo:
O texto "dá-nos conta de uma estada da Corte naquela Vila Régia 
em dezembro de 1545, da qual fazia parte D. Francisco de Noronha, 
o amo de Camões, e sua comitiva de 24 pessoas.
Obviamente, Luís Vaz, com 21 anos, pajem de D. Francisco e 
precetor ou mestre de D. António (n. 1536), estava lá. 
Era um dos 4480 que acompanharam o rei, rio Tejo arriba!"


"Há dias fui a Almeirim ao lançamento do livro do meu conterrâneo e amigo, Professor Eurico Henriques, sobre a história de Almeirim, uma vila régia criada por D. Afonso V, mas com o Paço (entretanto desaparecido) erguido por D. João I.

Nas páginas 164-169, vem um mui interessante rol, elaborado em 24 de dezembro de 1545, a mando de D. João III, que, preocupado com «as constantes dificuldades financeiras do reino e à necessidade de se controlar os gastos da Coroa», queria saber exatamente as «gentes que acompanhavam a deslocação da corte e que frequentava assiduamente a vila de Almeirim».

Garcia de Resende, na sua Miscelânia, apresenta-nos uma visão clara da Corte de Estada. Referindo-se à Corte de Portugal, testemunha a sua importância e opulência:

Ha corte de Portugal
Vimos bem pequena ser,
Depois tanto enobrecer,
ǭ nõ há outra ygual
na christandade, a meu ver:
tem cinco mil moradores,
em q elRey dá assentamentos,
moradias, casamentos,
tenças, merces, e honores.

Dessa lista constam 4480 pessoas! Podemos imaginar essa gente toda alojada à volta do Paço, em tendas ou barracas, todas à custa da população local, presumo.

Nessa lista, a certa altura, quem vejo lá? Claro! Não podia faltar: D. Francisco Noronha, o amo de Camões, acompanhado de 24 pessoas. Diz assim: «Dom Francisco de Noronha tem – 24 pessoas;».

De facto, D. Francisco de Noronha já havia regressado da corte de França, onde havia estado a exercer as funções de embaixador entre 1540 a 1544 (o primeiro período), durante o qual, e na ausência de D. Francisco, se desenvolve, em S. Martinho do Bispo (Coimbra) uma ligação amorosa entre Luís Vaz de Camões (n. 1524) e Violante de Andrade (n. 1522), a esposa do futuro conde (só em 1556 e por mero acaso). É após o seu regresso de Paris que a família se instala em Lisboa.

Ora, em 1545 Luís Vaz tinha 21 anos e é nesse período que se inicia na vida boémia de Lisboa, mas não só, como escrevi no Anexo 1 (Biografia cronológica do Poeta até embarcar para o Oriente) do meu «Camões em Macau: uma verdade historiográfica», a que o Historiador João Paulo Oliveira e Costa apoda de «uma nova biografia de Camões».

Estou em crer que Luís Vaz terá estado nesse rol entre os 24 elementos da comitiva de D. Francisco de Noronha, uma de entre tantas que acompanharam a corte, de bergantim rio Tejo acima, até à Vila Régia de Almeirim, nesse dezembro de 1545, e terá aí passado o Natal.

De resto, sabemos que ele esteve em Almeirim. O autor de «Almeirim-Vila Régia», meu prezado amigo e antigo companheiro de liceu em Moçâmedes, veio lembrar-me de uma carta de Camões, para um amigo (em redondilhas), mandada de África, ou seja, Ceuta (do seu período de desterro entre 1547-48), em que o Poeta fala de Almeirim:

Faço no meu pensamento
Mais torres que as de Almeirim, 
Mas enfim leva-as o vento, 
Porque são ventos enfim; 
Vou-me trás isto em que ando
Quando a tormenta mais arde, 
Suspirando a menudo, 
Hablando de tarde em tarde», etc.

Mas terá estado em Almeirim mais vezes. Cá voltaremos, a propósito de uma eventual vinda sua a Almeirim em 1570..."

Eduardo Ribeiro
Da série ‘’Mês de Camões’’











Redação: 30.06.2024