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2023/02/20

Entrevista a Luís de Camões que responde com os seus próprios versos, por Baptista Bastos






 
 

Baptista-Bastos imaginou uma entrevista a Camões em que as respostas deste às perguntas feitas são versos dos seus poemas.





ENTREVISTA (excerto)


— Camões, você parece ser um homem triste.

Tudo passei; mas tenho tão presente / a grande dor das cousas que passaram / que as magoadas iras me ensinaram / a não querer já nunca ser contente. 

(Do soneto “Erros meus, má fortuna, amor ardente”)


— Pode definir o amor, você, que foi a ele dado?

— Amor é um fogo que arde sem se ver; / é ferida que dói e não se sente; / é um contentamento descontente; / é dor que desatina sem doer. / é um não querer mais que bem querer; / é um andar solitário entre a gente.

(Do soneto “Amor é um fogo que arde sem se ver”)


— A sua vida foi, portanto, difícil?

— Em prisões baixas fui um tempo atado, / vergonhoso castigo de meus erros; / inda agora arrojando levo os ferros, / que a Morte, a meu pesar, tem já quebrado. / Sacrifiquei a vida a meu cuidado, / que Amor não quer cordeiros nem bezerros; / vi mágoas, vi misérias, vi desterros, / parece que estava assi ordenado.

(Do soneto “Em prisões baixas fui um tempo atado”)


— Mas acredita na permanente transformação das coisas, na transformação do Mundo?

— Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, / muda-se o ser, muda-se a confiança; / todo o Mundo é composto de mudança, / tomando sempre novas qualidades.

(Do soneto “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”)


— No entanto, você, Camões, parece um homem preocupado.

— Tanto de meu estado me acho incerto, / que em vivo ardor tremendo estou de frio; / sem causa, juntamente choro e rio; / o mundo todo abarco e nada aperto. / É tudo quanto sinto um desconcerto; / da alma um fogo me sai, da vista um rio; / agora espero, agora desconfio, / agora desvario, agora acerto.

(Do soneto “Tanto de meu estado me acho incerto”)













Fonte:
Baptista-Bastos (1980) [Entrevista imaginária], in revista Camões, n.º 2-3 (set.-dez. 1980), número que assinalou as “Comemorações do 4.º Centenário da Morte de Camões”, Lisboa: Ed. Caminho.
Apud: 
CARREIRO, José – Luís de Camões: a lenda, in blogue Folha de Poesia: artes, ideias e o sentimento de si, 10.06.2007.